sexta-feira, 8 de agosto de 2014




Friso de calçada, reflexo de farol, seguia caminhando num frio que podia ser mais 

intenso,

 mas que apenas acariciava as curvas do rosto, mãos nos bolsos, as pretensões todas 

guardadas entre os dedos das mãos,

 haviam

coisas que eram melhores se deixar em casa, não saía por aí carregando aquilo que não 

precisava, 

e tinham nuances que cabiam a própria dinâmica exercer. 


Ficava feliz em apenas ser.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

ºªºªpin



Hoje eu quero colher chuva
e anotar os pingos bem devagarinho, nas margens do meu caderno
eu estou sem pressa
a pressa foi embora, estava atrasada, louca demais para me explicar porque precisava ir
confesso que não prestaria atenção, em dias assim minhas ideias gotejam e no espaço de tempo entre uma gota e outra acaba que cabe um devaneio de atmosfera
nesses espaços me perco, como se me descontinuasse sem cessar
fico pulando poças e se não me misturo com o reflexo do céu no chão é porque o ar me preenche os olhos da imaginação.
navego entre os espaços que se abrem no mar de guarda-chuvas, nem chego a pensar que podia ser mais colorido esse pedaço de teto que cada um segura com as mãos, gosto de como a chuva faz o colorido existente vir a tona, tudo fica mais nítido, a cor molhada tem esse jeito de lucidez de maçã do amor, um verniz intenso que não impede o deguste dos olhos.
tudo é mais lento quando chove e as luzes cintilam e vão formando aqueles desenhos com vida própria que mudam a cada passo, eu gosto quando chove porque posso ficar conversando comigo mesma sem sentir falta daquilo que se passa lá fora, quando chove não me sinto perdendo nenhum contato, nenhum convívio, nos dias que chovem gosto de chover junto.
E o melhor, quando chove eu não penso antes de adormecer, o barulho da chuva caindo me embala, como se me levasse no colo para o mundo dos sonhos, sem que perceba sou fisgada e só retorno a mim na próxima manhã, isto é se não chover, porque se chover tão cedo não volto pra casa.

segunda-feira, 24 de março de 2014




Hoje eu te vi... e há quanto tempo a gente não se via? Seis meses? Eu não sei, te olhei como se fosse a coisa mais no normal do mundo, sempre um misto de alegria e surpresa, sempre aquela primeira sensação de quando nos conhecemos, e estava mais frio que hoje, descaradamente já era fim de outono e não começo, e então em todos os bares em que sentamos haviam pessoas que me conheciam e nossa conversa não se aprofundava nunca, e eu ali, sedenta de saber mais, de descobrir o quão profundo era o ser que me atraía há meses, mesmo que já conseguisse saber praticamente tudo sobre você, nada disso me bastava, eu queria o que não está escrito, e também aquilo que é sutil demais para ser descrito: teus gestos. Os queria todos, correndo junto ao som da tua voz, queria saber de ti tudo que não fosse eu. Queria em uma noite descobrir todos teus olhares, dos profundos aos irônicos, te queria numa gentileza absoluta de provocar teu riso e guardar teu semblante tal qual ele se mostrava em mim. Trocamos de bar, ganhamos outras companhias, me incomodei um pouco, mas não me deixei abalar, silenciosa por dentro e extrovertida por fora continuei minha pescaria, como se eu quisesse descer mais e mais em quem tu és. Te descobrir um sinônimo, pra então fazer dele só meu, que pudesse te dar um nome de pétala, e não poderia, que pudesse te chamar rasgo de céu e não fosses, e para que pudesse abusar de qualquer palavra até puí-la se alguma delas pudesse ser tu.

Desenhamos, escrevemos, de que serve o sketch se não for pra ser levado ao bar?  Esse eu ainda tenho aqui, fica na ponta da estante, junto aos outros, a frente dos livros de artes, e acima de todos aqueles autores que você ama. Dos muitos amores que tínhamos naquela noite fria, a literatura era o mais inebriante, e o mais conhecido, hoje temos história. trocamos livros, o correio é nosso amigo, livros vão, livros chegam, De verdade, Objectos, portugueses, húngaros, são muitos nossos amores, e demais nossas páginas corridas lado a lado, cada leitura um supremo desabafo. Cada palavra um encontro, quando as sensibilidades comungam não há espaço para enganos, duas almas que dançam tão próximas sem estarem unidas só podem estar a um passo da mágica. E o nome da mágica é encontro, aquela noite selou todos meus sentimentos, do mergulho que fiz em você não voltei eu mesma, tão singelo e tão bonito consegue ser o desprendimento de nós mesmos quando evocamos não o que somos, mas o que sentimos única e genuinamente no espaço tempo de uma experiência, me senti agraciada pelo teu carinho e amada pela tua grandeza, deixa eu passear por ti sem que mais nada me aconteça... e assim foi. 
Aquela foi uma noite e um dia tão rápido e corrido como o de hoje, a gente nada ganhou do começo de outono, além de frio nos pés, e uma conversa acelerada pós-cerveja, pré-rodoviária, com uma despedida querida e uma concordância mútua que precisamos nos ver muito antes de meio ano.
E eu nunca te disse nada sobre isso, em parte porque lá tinha eu minhas mil confusões amorosas, e aquele amor supremo e voraz que me consumia até a última vírgula de alma, daqueles amores profundos e fugidios que consomem anos entre esperas e aeroportos, que são cheios de sim e não, entupidos de sentir e vazios de exatidão, me cabia não ter a mínima dúvida de o ter vivido até o fim, em cada pedaço e espaço ter amado. 
E em parte, ma belle, pourquoi, tu eras e és de uma beleza tão única, que não me senti no direito de encontrar qualquer outra forma de te ter que não fosse simplesmente te amar.
Com isso amar cada instante e cada expressão tua, da forma do teu corpo ao teu tremer de pálpebras à mesa, sentada, bebendo café e ficando relutante com aqueles que não se percebem como responsáveis das próprias consequências, ou como te ofereces prontamente para cumprir qualquer função que não estejas afim de cumprir, com aquele sorriso raso de quem já viu piadas melhores, ou como és quase sempre cheia de culpas e desculpas quando recebes carinho ''gratuito'', jamais por quem claramente és, apenas um demonstre social e etc.
Acontece que te amei para nunca mais poder desamar, cada falha tua me é querida, mesmo aquelas com as quais luto, por ti, principalmente por ti, cabe em mim um bem bem maior que aquele que fazes a ti mesma. tenho por ti um carinho tão imenso que chega a ser patético, por vezes tu não o vê, está ele bem inserido em razões e achados, quem dera. Hoje somos outras, mesmo que as mesmas, estamos aí, outras viagens, outras conclusões, mesma história, não importa, sou imensamente grata por ter decidido apenas te amar para te ter, agora há tão mais para dividir e para querer. Queremos sobretudo estar uma na vida da outra, fazer diferença, construir nosso caminho, interferir um pouco ou demais. Quem diz que o amor não cresce não sabe de nada, oras, o amor cresce, fica até mais profundo e sentido que mãos e gestos que se buscam, o amor se transforma em algo tão mais revelador que o possuir, a mudança maior é poder ser, é poder ser tudo aquilo que só é maior na vida de quem se ama, é poder ser tudo sem ter o desejo de ser a única maneira que o outro possui para amar.
Num dia como o de hoje eu simplesmente agradeço ter tomado decisões que naquela época nem entendia porquê tomava, hoje a vida me trouxe não apenas a oportunidade de te ter, mas exatamente a de relembrar como te ganhei para sempre na minha vida. Te amo ma belle, demasiado, carinho imenso, etc.







terça-feira, 24 de dezembro de 2013




às vezes gosto de pensar que o amanhã é algo que me incendeia
por inteiro
por completo
no âmago da alma se acende a fagulha
que de um instante
faz um risco de céu
num momento de lua

segunda-feira, 30 de setembro de 2013











benfazeja

Às vezes não sei o que a vida quer de mim,
que ame, que seja só, intempestiva, festiva, grata, odiosa, 
                                                        
que sofra, que ria, que goze ou gema, que deteste, que teste
que crie ou desista, que faça, cruze as mãos e espere
deseje, que não deseje
que esqueça...                               

Que seja! Que seja!

Vida, vidinha benfazeja, que fazes de mim quase sempre o que deseja
Empresta-me assim teu vigor, tua cor
teus braços longos e dançarinos
e ensina-me por favor mais alguns passos

para que ao menos eu possa improvisar estes teus tão desvairados compassos
 


           Se sentia humana
                       estava plena

tinha os dedos agitados de quem fala sem parar
amava os textos, até mesmo os sem heróis
enquanto esperava ia traçando ideias no papel

sentia que se a vida muito lhe pedia
cada vez menos restava, e que assim talvez até fosse bom, pois já havia vivido espaços demais
e até se sentia pequena pequena demais para preenchê-los

vivia agora umas coisas meio assim, sem planos
cheia de urgências que caminhavam da mente ao corpo
e do corpo pela mente
tivera alguns sustos, passara alguns dias quase morta
 e quanto mais tentara vir a tona
mais o queixo lhe caía aos pés
ingênua
jurava a si mesma que estava tudo bem
que seria tudo apenas um gigante porém


preferia acreditar que a mágica dos dias, embora meio confusa e arbitrária
ainda se fazia vigente
e que tudo não passava de drama pessoal totalmente desnecessário

e embora tudo parecesse querer se acabar
não se dava por vencida
continuava como se nada fosse absoluto
apenas passageiro

terça-feira, 17 de setembro de 2013

suspensão




Estou suspenso. Estou suspenso entre dois espaços, dois momentos, um momento, um espaço. O aqui e o agora. Estou suspenso pelas asas do mundo, sentindo todos os ares que se deslocam pela esfera celeste. Estou suspenso num universo sem homens, mulheres ou crianças, fora do tempo e longe de qualquer lembrança. Estou suspenso no mais derradeiro instante, meus pés de algodão se desfazem antes de tocar o chão, sou um arremedo de anjo vagando pela escuridão. Cumprimento os dias e as horas, espalho pedaços de sonho pelas formas, eu sonho. Em meus sonhos estou sempre suspenso, um quase toque que jamais se saberá gentil ou amargo, pois estou suspenso antes que todas as coisas se encontrem ou se percam. Estou antes de agora, quase aí. Fecho os olhos e todas as idades me atingem, viajo pelos rostos do passado como quem puxa a cadeira para trás, prestes a se levantar, sinto o presente como um magnífico pôr-do-sol, todas as montanhas do horizonte me abraçam em seus braços de pedra, com a ferrenha crença de que o que é vivido pode ser prendido para sempre. Então mergulho num vasta e profunda piscina azul e meus olhos passeiam por todas as formas que o futuro possa ter, de dor e escuro, de claro e límpido. Sou o natural passageiro observador de mim mesmo. Me interrogo sobre e nada. Não me interrogo, sou nada, estou sobre, permaneço ilícito a mim mesmo. Dobro a esquina dos dias a espera de um agora inescrutável que nunca se revela, estou quase lá e então me escapa pelas mãos, ainda que sinta seus cabelos roçarem pelos dedos, ainda que sinta seu cheiro indefinido de algo surpreendente e vivo, ainda que o ar se desloque ao meu redor e através de mim com todas as funções de movimento,e um baralho de cores borre meus olhos vidrados, ainda que sinta uma batida inadvertida e suspensa no peito, apenas me resta inalar aquele instante, e é assim que sei que estou respirando o agora. Quando me liberto de todas as horas mais que possa ter, que possa ter tido, todas as que foram e as que são, no agora, sem distinção, num agora supremo e irremediável, deliciosamente traçadas palmo a palmo num corpo de escuro e silêncio vívido, onde cada célula se exprime na mais intensa recepção de todas as mensagens possíveis. Agarrado a mim mesmo, atravesso o agora tanto quanto sou atravessado por todas noções inertes da alma, imberbes, latentes, pulsantes, no vão da alma todas as respostas aguardam suas perguntas, das mais ingênuas e aparentemente sem propósito, as mais estranhas, absurdas e insanamente despropositadas. O agora sempre se permite não perguntar, como um ser tranquilo e ancestral, ele apenas é.
Um momento sem perguntas para as respostas, guardadas, escondidas, dadas ou furtadas com ferrugem dos destroços arcaicos da vida, o agora transpassa qualquer intenção, ele não se valida numa reflexão, contínua ou exagerada, todas reflexões são nada no agora. Estendo os braços pra essa janela nítida, como quem vai abrir as cortinas de um espetáculo ou saltar de um penhasco, num ímpeto de louco me jogo no agora sem esperar convite ou uma negativa de pálpebras, posso ter fechado os olhos do corpo, mas minha alma está tão desperta como mil alfinetes cravados na pele, respirando pelos poros do espírito me abro para a ponte mais brilhante de todas capitais, um sorriso se abre em meu peito de ar, as artérias bombeiam mais que sangue, estão repletas de desejo, um desejo palpitante e excitado em cada milimetro de ser e não ser.

Estou suspenso entre dois mundos, um que sou, um que é, nessa esquina de percepções todos acasos acabam de falecer, todas condições cessaram de se pensar, para além do tempo, de homens e mulheres, o agora é o único transeunte dentro de mim. E com seus passos lépidos, de ponta de pés gelados, caminha por toda minha superfície, captando, reconhecendo, acarinhando todas as outras possibilidades que se foram quando sua passagem se fez real, vigente e real, o agora deixa atrás de si um espaço que jamais será retomado por qualquer outro instante além do agora, e ainda assim, como bom jogador, a todos encanta, mesmo que já não possam mais ganhar o que agora já conquistou.

Fecho os olhos, as pálpebras se encontram na respiração dos cílios, um a um, delicadamente desenhados pelo universo, distribuídos pelos seres suas partes, sou uma gota única que solitária desliza na pele de um corpo abençoado pelo prazer de estar vivo dentro dos olhos do agora. Me deixo escorrer no mais natural dos acontecimentos, até evaporar, liberto da superfície do agora, abandonado de qualquer suspensão, finco os pés no chão como quem acaba de ser beijado pela vida, como quem, Agora, já pode viver qualquer coisa nas ruas esfumaçadas da percepção.

domingo, 19 de maio de 2013

regalo



 " Engraçado como não tenho pena de ti, e tem dias, como o de hoje em que desejo que te sofras demasiado. Então me lembro que por hora sou tua maior dor, e me prontifico de bom grado a manter vivo teu sofrimento enquanto tu destinares ao desamor teu maior regalo."

"você diz que tem muitas coisas para me falar
cuida. peço-te.
não me assuste quando moro no silêncio.
não me assuste pois posso naufragar num mar de palavras, porque mastigo cada escrita não feita, e meus joelhos já não cansam mais de me manter em pé.
eu tenho curvas e curvas de mim mesma para caminhar. tenho os olhos grudados no horizonte, mirando cada desenho de céu que possa finalmente se transformar.
cuida.
manda-me talvez cada palavra dentro de uma nuvem
para que ela tenha o dia todo a passar pelos meus olhos"