domingo, 30 de agosto de 2009


amarelo.
azul.
verde.
cinza.
névoa.
nublado.
bruma.
pluma.
ventania.
casa.
morada.
lugar.
laranja.
ácido.
encontro.
nem tudo aquilo que se encontra se procura.
nem tudo que se procura se encontra.
nem tudo que se encontra é o que procurava.
mas o encontro vem da procura.
quem tá parado encontra o que?
a procura é um encontro.
a procura é um desejo.
o desejo é uma vontade.
a vontade é despertada.
a vontade é o sono da alma, que acordou.
quando a alma adormece ela sonha.
e sonha
com os desejos dos olhos
que fechados colhem o mundo num suspiro profundo
perdurando a vida em outro mundo

Catavento°º°º°

E então tem essa menina, e ela é mais nova que eu, e tão intensa como eu fui um dia, e várias vezes eu já quis dizer várias coisas para ela. Como quando a conheci e ela era aquela pessoa parada ali, e estava frio, e desejei profundamente não ser apenas mais uma pessoa na vida dela, eu quis dizer - Olha menina, você tem que me escutar, além de ser linda, você é foda, é fera, firme, humor dilacerante, desculpa eu sou maluca, eu nunca fui você um dia, nem quero, e também não quero ter você, e pouco me importa se o mundo não te der razão, se você for engolida nessa pátria de muitos, nação de alguns, estado calamitoso de todos. Mas menina, eu sei lá, entende? Já surtei meu olhar com o mundo, já busquei me "redimir" comigo mesma. E você está parada aí, inclinando a cabeça e sempre se negando como se não soubesse de nada, atrás dessa franja totalmente despropositada que guarnece esse seu rosto de falsa gata enfossada. Presta atenção, eu nem tenho porque te gostar, e te gosto menina, como gosto, do teu drama, e se encolhe na cama, se atira no chão, se diz descontrolada, mas espera menina, não há nada, você transpira vida, é só isso, tudo parece muito apertado aí dentro, mas é só esse lance menina, de gostar, a gente se detona como bomba quando ama, dá tudo de si em qualquer tempo que é um miléssimo de segundo agudo do coração. E então parece que tudo vai explodir e você se sente em cacos, mas nada explode menina, a droga é que nada explode e você tem que se olhar no espelho todos os dias, e se ver, e se aturar até as coisas mudarem...


Era pra essa menina, que eu queria dizer uma porção de coisas, que me disse hoje em algumas linhas eventuais, de tarde de outono, que eu tava decapitada no meu absurdo cotidiano, me fatiando num pensar que eu nunca imaginei, quando se disse, quando se falou. Me refletiu, eu surtei menina, no meu drama a joão pessoa foi tragada a passadas desnorteadas pela josé bonifácio, onde, como você bem disse 'observar a bondade e a maldade das pessoas', e mesmo sentada aqui o que me traga inteira, é lembrar do teu rosto, sorriso, peito exposto me dizendo que sabe que todos somos maus, e me assusta a tua calma inquietante, como se essa verdade eminente fosse devorar minha vida, varrer em poeira meu coração catavento. E eu queria te dizer menina, já que muitas vezes não disse, que eu acho mesmo que não sabia que era isso o que eu via quando vi você pela primeira vez, em sua voz charmosa, tua intempestividade atordoante, tua solidez que se debate, é só hoje menina, isso desse lance de gostar, nos descasca, ficamos com as mãos nos bolsos, no frio, observando porque achamos que estamos vazios quando o amor apenas nos confunde. Essa fundição menina, ela vai triturar, misturar, tudo que já foi com o que é pra'quilo que vai ser.


E eu quero muito, dizer ainda, sem que dê tempo de perder a coragem, que agradeço às eventuais graças geográficas e gastronômicas, o dia em que te vi pela primeira vez, rosto inclinado, meio sorriso, profundidade, e até mesmo o tolo pensar que imaginei já ter sido como você um dia, ainda bem que não menina, porque você continua me fascinando e com você vou aprendendo mais pedaços de vida.

mon soeur

°º°º°"

'não se entristeça' - disse-me ele...




A tristeza é algo tão complicado de lidar...exige diligência, apoio, fé, silêncios, músicas, às vezes amigos, às vezes ininterrupta solidão...
Há alguns anos atrás, criei o Verboletas, nunca fui fã de compartilhar meus textos, normalmente quando eu desejava fazê-lo, escrevia para alguém em específico sobre algo em específico, mantive diários, agendas, arquivos de textos por anos, para ser mais honesta há 11 anos que escrevo, coisas razoáveis...rs, nem sempre.
Então criei o verboletas, e funcionou, durante 4 anos funcionou muito bem, mas como toda escritora que eventualmente se apaixone, escrevi sobre quem gostava, escrevi, escrevi, mais um ano escrevendo e escrevendo sobre como era gostar de quem eu gostava... Foi bom, descobri mais muitas coisinhas da minha escrita, amadureci, desenvolvi, mas então nasceu um tom, um hiato naquilo: parecia que tudo que eu escrevia estava direcionado a esse alguém, e esse desacorde foi-me gerando um sentimento estranho, repentino, insistente. Porque perdi liberdade, porque me faltava recursos para manobrar tal situação, porque não tinha nenhuma indignidade com o que havia escrito, mas já não achava tão cabido aquela audácia toda comigo... me senti desfeita, minimizada por palavras, foi feio, não foi bonito, por mais que eu soubesse que não era verdade, que tinha muitos anos de escrita própria, nascida de mim para mim, foi indigesto, confuso e opressor, não aguentei, chegava o verão, havia algum dinheiro e planos... Deletei, excluí o verboletas, deletei o orkut, e me enfiei numa das praias mais distantes do meu estado, no meio do nada, só dunas e dunas, e um mar imenso e solitário, sem celular, sem internet - mais de 20 dias. Precisava saber de mim, me sentir, perceber, entre uma caminhada e outra, noturna, a ver estrelas e luzes de navios pesqueiros, aos poucos fui me silenciando, me ouvindo e me gostando, entendendo mais de Deus, sim - 'ele não me deixa só nos meus sonhos nunca' - era desastroso demais para mim: minha escrita, uma das poucas coisas que posso cingir entre os dedos do coração e dizer 'minha', minha poesia, minha face amorosa, os dedos com os quais acarinho o que tantas vezes me morre na fisionomia. Era crucial que encontrasse como sentir de novo aquilo, e não foi escrevendo que descobri... foi fazendo silêncio de mim, e nas luzes do mar escuro, ouvindo ondas e ondas propagarem-se na concha da memória, saborear não ser nada...
Regressei, cheguei em casa numa tarde quente e nublada, depois de 8h de viagem, tirando fotos, ouvindo música... Queria tanto estar pronta para escrever, preparei um chá, abri a janela, conversei com o gato, lancei um olhar para quilos e mais quilos de roupas sujas... foi a primeira noite que fechei a janela, a janela da escrita, abri o navegador e senti sono, adormeci até a noite. Não sentia tanta vontade de falar com ninguém, quando iniciaram as aulas, tive que voltar pro orkut, os contatos, os encontros para discussão, então escrevi o primeiro texto de regresso do verboletas, Passarinho, a intenção era libertar o que estava preso - 'despretencioso no mundo como na vontade' - foi bom, até chegarem as primeiras perguntas, e os posts indiretos e todo aquele tititi de gente que insiste em ver nos outros o que deveria procurar em si, amor, tem uma 'pessoinha' muito especial, e uma escritora fantástica que acompanhou isso, mas como ela mesmo dizia 'isso é uma pendência', pendente ficou, com o TCC me comendo os neurônios não havia muita escolha mesmo, além de eventualmente despejar algum texto, e isso foi me dando falta, falta dos textos anteriores, de textos bons, de ideias bacanas... mas eu não queria 'ressarcir' o verboletas de nada anterior, fazia parte de tudo recomeçar, compartilhei isto, da falta dos textos com o Samuh, ele disse-me que  deveria abrir outro blog somente para os textos antigos então, e fiquei mais aliviada - ainda era possível não me perder por completo. Então, há um mês atrás mais ou menos, essa minha amiga escritora quis deletar o blog dela... poxa, quem melhor do que eu compreendia o bagunça de sentimentos que leva alguém que escreve a deixar um lugar?... Pensei muito sobre aquilo, e comecei a postar imagens e desenhos, alguns trechos de textos jogados no word, e sempre insatisfeita com o blog, às vezes acumulava mais de 3 rascunhos na caixa do blogger que nunca publicava, aquilo que escolhi para ser um céu sem fim tornará-se uma prisão das mais insalubres, apertado, formatado, é difícil conciliar tantas normas pessoais para escrever, percebi que  procurava, procurava e não encontrava - 'a procura é um encontro.' -  era eu quem queria tanto por os pingos nos i's, era eu, e somente eu mesma que andava desatinada a procura de explicações, métodos e aceitações, com essa mania absurdamente compulsiva de equalizar e calcular sentimentos...a escrita nunca me pediu nada, nunca pediu que eu provasse meu amor, minha fidelidade ou coerência, sempre me deixou ser sendo, através dela eu fui tudo, fui indo, terminei sendo...desejando coerência emocional através da literatura, é de 'rir para não chorar' mesmo, rs.
Vamos por os pingos fora dos i's: não existe isso, nem na escrita e tão pouco na vida, tudo são contextos, não há uma regra para manter um blog, porque não há regras para ser-se alguém ou incluir ninguém em nossas vidas, porque se começamos a estabelecer muitas normas descobrimos dor, tristeza e frustrações desnecessárias, geramos conflitos ao limitar, delimitar e normatizar, há de ter-se abrangência, como um idioma pronto a construir novas plavras, como um horizonte mudando a visão a cada passo, como cada passo mudando a paisagem. Permitir-se seguir, errar, tentar corrigir e simplesmente não conseguir, acho que foi bom o tempo com o verboletas, que fui muito feliz quando feliz fui e muito triste quando triste fui, porque essa sou eu! Muito, muito de alguma coisa. Porque meus pingos andam todos por aí em algum lugar, menos em mim rs, eu que tento burlar a realidade e colocá-los onde não existem.
Sou essa bagunça inusitada de futuro com passado em presente absoluto. Não me entristecerei, não se preocupe, toda dor é legítima, assim como todo gesto de amor, não me entristecerei porque passei bastante tempo em luto pelo verboletas e todas as lembranças que eu pensava que abriria mão quando ele não mais existisse, sutil tremendo engano comprovado: sou capaz de recordar cada post até hoje lançado, e sentir em mim todos os versos brotados, as ideias surgidas, os carinhos propostos, as mágoas de chuva - sim, eu continuo tendo problemas com o clima, me afeta a cara do dia - os elogios e descobertas, as pessoas fantásticas que conheci nesse tempo de escrita, hoje um pedaço meu não morre, mas sim ganha um maior significado: não é preciso para escrever pontuar emoções, sentimentos e palavras, é preciso apenas ser-se fiel às vontades surgidas pela linguagem. Acho que aprendi, de hoje em diante 'isempingos'.




Se a procura é um encontro, o coração um catavento, e o amor um passarinho solto no mundo, abrirei bem as janelas para que esse céu todo me chegue às mãos da poesia...