domingo, 30 de agosto de 2009

°º°º°"

'não se entristeça' - disse-me ele...




A tristeza é algo tão complicado de lidar...exige diligência, apoio, fé, silêncios, músicas, às vezes amigos, às vezes ininterrupta solidão...
Há alguns anos atrás, criei o Verboletas, nunca fui fã de compartilhar meus textos, normalmente quando eu desejava fazê-lo, escrevia para alguém em específico sobre algo em específico, mantive diários, agendas, arquivos de textos por anos, para ser mais honesta há 11 anos que escrevo, coisas razoáveis...rs, nem sempre.
Então criei o verboletas, e funcionou, durante 4 anos funcionou muito bem, mas como toda escritora que eventualmente se apaixone, escrevi sobre quem gostava, escrevi, escrevi, mais um ano escrevendo e escrevendo sobre como era gostar de quem eu gostava... Foi bom, descobri mais muitas coisinhas da minha escrita, amadureci, desenvolvi, mas então nasceu um tom, um hiato naquilo: parecia que tudo que eu escrevia estava direcionado a esse alguém, e esse desacorde foi-me gerando um sentimento estranho, repentino, insistente. Porque perdi liberdade, porque me faltava recursos para manobrar tal situação, porque não tinha nenhuma indignidade com o que havia escrito, mas já não achava tão cabido aquela audácia toda comigo... me senti desfeita, minimizada por palavras, foi feio, não foi bonito, por mais que eu soubesse que não era verdade, que tinha muitos anos de escrita própria, nascida de mim para mim, foi indigesto, confuso e opressor, não aguentei, chegava o verão, havia algum dinheiro e planos... Deletei, excluí o verboletas, deletei o orkut, e me enfiei numa das praias mais distantes do meu estado, no meio do nada, só dunas e dunas, e um mar imenso e solitário, sem celular, sem internet - mais de 20 dias. Precisava saber de mim, me sentir, perceber, entre uma caminhada e outra, noturna, a ver estrelas e luzes de navios pesqueiros, aos poucos fui me silenciando, me ouvindo e me gostando, entendendo mais de Deus, sim - 'ele não me deixa só nos meus sonhos nunca' - era desastroso demais para mim: minha escrita, uma das poucas coisas que posso cingir entre os dedos do coração e dizer 'minha', minha poesia, minha face amorosa, os dedos com os quais acarinho o que tantas vezes me morre na fisionomia. Era crucial que encontrasse como sentir de novo aquilo, e não foi escrevendo que descobri... foi fazendo silêncio de mim, e nas luzes do mar escuro, ouvindo ondas e ondas propagarem-se na concha da memória, saborear não ser nada...
Regressei, cheguei em casa numa tarde quente e nublada, depois de 8h de viagem, tirando fotos, ouvindo música... Queria tanto estar pronta para escrever, preparei um chá, abri a janela, conversei com o gato, lancei um olhar para quilos e mais quilos de roupas sujas... foi a primeira noite que fechei a janela, a janela da escrita, abri o navegador e senti sono, adormeci até a noite. Não sentia tanta vontade de falar com ninguém, quando iniciaram as aulas, tive que voltar pro orkut, os contatos, os encontros para discussão, então escrevi o primeiro texto de regresso do verboletas, Passarinho, a intenção era libertar o que estava preso - 'despretencioso no mundo como na vontade' - foi bom, até chegarem as primeiras perguntas, e os posts indiretos e todo aquele tititi de gente que insiste em ver nos outros o que deveria procurar em si, amor, tem uma 'pessoinha' muito especial, e uma escritora fantástica que acompanhou isso, mas como ela mesmo dizia 'isso é uma pendência', pendente ficou, com o TCC me comendo os neurônios não havia muita escolha mesmo, além de eventualmente despejar algum texto, e isso foi me dando falta, falta dos textos anteriores, de textos bons, de ideias bacanas... mas eu não queria 'ressarcir' o verboletas de nada anterior, fazia parte de tudo recomeçar, compartilhei isto, da falta dos textos com o Samuh, ele disse-me que  deveria abrir outro blog somente para os textos antigos então, e fiquei mais aliviada - ainda era possível não me perder por completo. Então, há um mês atrás mais ou menos, essa minha amiga escritora quis deletar o blog dela... poxa, quem melhor do que eu compreendia o bagunça de sentimentos que leva alguém que escreve a deixar um lugar?... Pensei muito sobre aquilo, e comecei a postar imagens e desenhos, alguns trechos de textos jogados no word, e sempre insatisfeita com o blog, às vezes acumulava mais de 3 rascunhos na caixa do blogger que nunca publicava, aquilo que escolhi para ser um céu sem fim tornará-se uma prisão das mais insalubres, apertado, formatado, é difícil conciliar tantas normas pessoais para escrever, percebi que  procurava, procurava e não encontrava - 'a procura é um encontro.' -  era eu quem queria tanto por os pingos nos i's, era eu, e somente eu mesma que andava desatinada a procura de explicações, métodos e aceitações, com essa mania absurdamente compulsiva de equalizar e calcular sentimentos...a escrita nunca me pediu nada, nunca pediu que eu provasse meu amor, minha fidelidade ou coerência, sempre me deixou ser sendo, através dela eu fui tudo, fui indo, terminei sendo...desejando coerência emocional através da literatura, é de 'rir para não chorar' mesmo, rs.
Vamos por os pingos fora dos i's: não existe isso, nem na escrita e tão pouco na vida, tudo são contextos, não há uma regra para manter um blog, porque não há regras para ser-se alguém ou incluir ninguém em nossas vidas, porque se começamos a estabelecer muitas normas descobrimos dor, tristeza e frustrações desnecessárias, geramos conflitos ao limitar, delimitar e normatizar, há de ter-se abrangência, como um idioma pronto a construir novas plavras, como um horizonte mudando a visão a cada passo, como cada passo mudando a paisagem. Permitir-se seguir, errar, tentar corrigir e simplesmente não conseguir, acho que foi bom o tempo com o verboletas, que fui muito feliz quando feliz fui e muito triste quando triste fui, porque essa sou eu! Muito, muito de alguma coisa. Porque meus pingos andam todos por aí em algum lugar, menos em mim rs, eu que tento burlar a realidade e colocá-los onde não existem.
Sou essa bagunça inusitada de futuro com passado em presente absoluto. Não me entristecerei, não se preocupe, toda dor é legítima, assim como todo gesto de amor, não me entristecerei porque passei bastante tempo em luto pelo verboletas e todas as lembranças que eu pensava que abriria mão quando ele não mais existisse, sutil tremendo engano comprovado: sou capaz de recordar cada post até hoje lançado, e sentir em mim todos os versos brotados, as ideias surgidas, os carinhos propostos, as mágoas de chuva - sim, eu continuo tendo problemas com o clima, me afeta a cara do dia - os elogios e descobertas, as pessoas fantásticas que conheci nesse tempo de escrita, hoje um pedaço meu não morre, mas sim ganha um maior significado: não é preciso para escrever pontuar emoções, sentimentos e palavras, é preciso apenas ser-se fiel às vontades surgidas pela linguagem. Acho que aprendi, de hoje em diante 'isempingos'.




Se a procura é um encontro, o coração um catavento, e o amor um passarinho solto no mundo, abrirei bem as janelas para que esse céu todo me chegue às mãos da poesia...

Um comentário:

  1. 'You better bring your own sun, sweet girl.
    You gotta bring your own sun now, don't you forget
    you bring your own sun, just enough for everyone.'

    Mesmo que o clima lá fora não esteja favorável, traz teu Sol 'pra gente' :)

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