quarta-feira, 30 de setembro de 2009

isso de você

é tão fácil amar você,
como quem desvenda um dia cinza ocioso
como quem vê graça nas próprios pés descalços
e se não fosse fácil amar você
eu amaria difícil
eu amaria de novo
mil vezes
o impossível

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Essa é a minha história... em muitos dias, numa complexa e inexorável sucessão de acontecimentos, várias histórias são construídas e contadas. Cada momento, cada sólido ou etéreo sopro de realidade é armazenado, apreendido e significado... ou não. Às vezes me pergunto como vivi alguns de meus retalhos pessoais, e não raramente, não sei quem sou, apenas o que se passa, e por vezes me questiono, se o que se passa é tal como o percebo...
não sei, acho que ninguém o sabe, é verdade o que é fato? será o fato algo assim, tocante, permeável, ao alcance das mãos, na margem dos olhos, puro e nobre no coração?
já fui apocalípitica, já fui crente, descrente, e acho que até sem fé. mas será possível ter sido sem mim? há essa possibilidade? A ortografia me cansa, a gramática me assedia, não vejo real mudança, procuro um som mental, procuro como nas tantas vezes em que procurei algum refúgio para mim, para me parar de doer e remoer, para perdoar, e até recantos para odiar na mais suprema paz e silêncio o que não admitiria odiar em voz alta pela falta de nobreza e veracidade de minhas razões...
agora é apenas mais um momento, e a verdade ácida é que irei passar por ele como passei por todos os outros momentos terríveis que já vivi... a verdade é que nada me consumirá além da própria vida morrendo e matando a cada novo miserável segundo humano que se esgota e passa, e nenhum silêncio será mais mordaz e vívido do que aquele em que tornar-se-á claro e nítido que nada fiz, e mais um momento em vão por vão de circunstância se foi... descobri que a pior maneira de esperar é esperar, que esperar leva a desespero - de- sperar e sucumbir aguardando, e contrariado ir perdendo sem ir lutando, por seguir lutando por algo que nem está lá, e é apenas sugestivamente aguardado, e talvez nunca acontecido.
A vida, a vida é maluca, a realidade, maria, é louca, o importante é inventar uma resposta ao invés de inventar perguntas tortas que uma realidade curvilínea jamais esclarecerá com a total nitidez necessária. O absurdo é viver, começar, terminar sem nunca acabar ou nunca ver acabar o que iniciou, essa é, e por assim o ser, a maior maluquice em se querer explicar coisas. Algo me adultera, porque algo me permeia, singela e fragilmente antigas dores cavam seus ninhos nas areias do devaneio... é tão soberba a recusa da dor, é tão frágil o sentir amor, e tão simples viver de tal como se é... 
O realmente especial é não fazer ideia do que vem a seguir... rs.


terça-feira, 1 de setembro de 2009

Eu espero que estejam bem...




é noite e desperto, o ruído da porta-janela abrindo de repente com o vento me acorda, a cortina esvoaça feroz e silenciosamente pelo quarto, por alguns instante fico presa naquela cena: o ondular do tecido, o som das folhas arrastando-se pelo chão do quintal, o ruído distante de um portão de ferro rangendo. Mais uma madrugada transformadora, mais um dia que chegará radicalmente diverso ao seu antecessor,  levanto-me e com um abraço retenho modesta a fúria tecida, o vento gela meus pés, tranco a porta com o olhar ainda vidrado naquelas folhas orfãs, dançando a vontade do vento, somando, tocando...
volto para a cama, acendo a luz da cabeceira: 4h da manhã, bom horário para começar um temporal, minha mente segue sozinha pensando nas coisas a serem feitas para o 'próximo' dia, o detestar sair com chuva, o tempo que possivelmente levarei para voltar a dormir, e o quanto me incomoda qualquer coisa sair do meu campo dominador de possibilidades aceitáveis, sim, resmungo mentalmente 'não precisava de mais isso'.
paciência, tateio pela mesa do computador - certos metodismos tem suas vantagens, como sempre deixar o óculos no mesmo refúgio - de relance vejo os livros jogados pela cama 'para quê ler agora?', sentimento que tem me acompanhado nos últimos dias 'estou tão cheia de ideias, palavras, problemas, hipóteses de soluções e falta das mesmas' se colocar mais informações junto a isto ou transbordo ou não retenho ou não interajo decentemente com o que consumo... tenho disso, tenho disso, sair tropeçando me parece impróprio quando posso ficar sentada me equilibrando até levantar e andar.
equilíbrio, 'bah', poxa, palavra cheinha de significados e apuros humanos, gerados e absorvidos 'onde estavam as folhas antes de terem caído, e que será delas agora que não mais fazem parte do que foram?' problemas, sempre um perigo para a sensível paz desejada e, por vezes, duramente mantida 'traga paz, traga sempre paz' sorrio na meia luz - 'ah, se fosse assim simples como estender os dedos à xícara...teria paz sempre na justa medida'.
justiça. ser justo. estar justo. apertado? não, na medida. onde foram passear as 'justezas' ultimamente, haverá paz sem justiça? sofrer é injusto? não virá a justiça do senso de equilibrio próprio e intransferível?
não estamos 'justos', estamos apertados nas situações, estamos soltos como folhas que acabam unidas pelo vendaval, estamos ventando em família, sem cep único, sem linhas, sem fronteiras 'preciso me afastar' 'queria estar perto', estou perto demais de meus problemas não vejo o porquê de mal estar, não sei como ficar bem, só sei do que acontece quando acontece e como fico como devo ficar... parece-me triste que a solidão se alongue, que hajam dúvidas, que nasçam mágoas, surjam entrelinhas, acrescentem máscaras e personagens a encobrir e mistificar cada vez mais o mesmo drama. O único drama, o drama algum - equilíbrio - centro - senso - paz - estar justo - consigo e para si, e talvez, quem sabe estando, poder juntar nas palmas do coração um punhado de paz para amainar o sono de alguém querido, eu sei que dormem, ou pelo menos assim desejo, nos cantos do mundo, quadrantes nacionais, naúticos de azul profundo, amores meus, singrando mar de céu em um sono que diz tudo: a vida me fez igual no mundo. 
Ela dorme, talvez triste, talvez não, nessa concha sua, resguardada do que quer que a vida queira - terá que esperar que outra manhã surja para dizer ou lhe dar qualquer outra mensagem sua, e aquece as mãos envoltas no corpo, apoia a cabeça que enfim anoitecida descansa, a cada respirar um outro dia se aproxima da cama, ela sabe disso, sabe que com o despertar a vida lhe pede prontidão e aceitação, e que mesmo que diga não aceitar nada, eis que mente antes de falar: o corpo que segue respirando já aceitou que Deus quis a vida seguisse. Aproveite a noite, aproveite o resguardo, aproveite o despertar, e quando o dia do nada nublar aprenda a fazer noites de luz, retenha-se de novo naquele espaço tão sutil e poderoso que só a ti pertence: alma.
Ele dorme, talvez triste, talvez não, encolhe mais ainda as palavras que hoje pareciam folhas desvairadas, tomando quaisquer direções... afeito a sua coberta, resignado com o que não pode nomear, é, tem dias que o coração sai sem dizer aonde vai. Cada hora sonhada é mais um momento passado só, e o que muitas vezes é libertador tem momentos de castigo, incoerência e incompreensão: solidão. Para ser livre é preciso prender o coração, e sim a mesma prisão é a porta: é preciso cultivar os sentimentos e tê-los, viver angústia e completa afeição, reter - não ter suspeita ao abraçar o ressentimento que provocamos. Ele gosta de dias brancos, céus de outubro, no fundo sabe que cada dia surgido é uma tela em branco pronta a aceitar qualquer criação, sabe que nãos não são somente nãos, mas antes uma folha de amor que não sabe o que será de si sem a segurança da árvore... só o tempo dirá o que será feito da folha, só o tempo. Sozinho, ele sabe disso, e é por isso que dormindo seu coração canta enquanto o céu branco não se abre para aguardar seus traços de liberdade.

Eu espero que estejam bem, embora aqui, ouvindo o som das folhas eu sei que estão, sei que posso em paz, a mesma paz de equilíbrio da certeza que há justiça nos conflitos da alma,  paz que me deixa abandonar minhas vontades de domínio nos braços amorosos da aceitação.
Achei enfim o meu punhado...