quinta-feira, 1 de outubro de 2009

a louca heresia



Se pudesse medir as coisas, enrolaria você com fita métrica, tracinho a tracinho, buscando pontinhos teus no meu inóspito físico, te materializaria, bobo, indolente, jogado nos braços cotidianos, rasgaria o tempo como quem rompe um lacre ‘abre-fácil’, só para ter-te assim: ao alcance das mãos.
Surrupiaria todas tuas exatidões e as lançaria, rindo, como louca, do alto deste arranha-céu de vontades insanas e ardilosas. Dobraria todas as esquinas e meu olhar seria sempre o mapa do seu andar.
Queria medir você na esperança de teu mundo no meu entrar, de a cada traço dado a gente só mais junto ficar. Daria um jeitinho bem honesto, nada nulo, diplomata e obscuro de roubar você dessas coisas chatas e que não te acrescentam em nada, mas só sufocam com garras de dono tua beleza elementar.
Seria poeta doida, te pegaria pela mão do absurdo e te mostraria que os verdadeiros poemas são escritos no silêncio de um suspiro mudo, rabiscados a fogo no coração e publicados na alma. E se você me olhasse sorrindo, incrédulo, eu menearia a cabeça e saberia que o só o tempo, destilado nessa maluca fita métrica te daria as respostas de todas as coisas que eu já sei, mas que você precisa descobrir, sozinho, lambendo o asfalto do mundo, perdido entre dúvidas e tormentos, se perguntando se as coisas realmente serão fantásticas um dia. Continuarei caminhando, como quem não liga quando não é acreditado, sorrirei para mim mesma, olhando os desenhos da calçada misturados aos nossos sapatos, imaginando como será o dia em que reconhecerei num olhar teu que finalmente escrevestes verdadeiros poemas, sabendo que me achará tranqüila e não uma poeta doida e enlouquecida, que não mais me temerás em receios menos seus e mais do mundo, sim, sorrirei como quem tem a sorte tatuada. Imagino o momento em que retribuirei teu sorriso singelo com um abraço quente e calmo, então te darei a mão para que você me guie, e conte cada fato irrelevante vivido por ti na busca da poesia, te ouvirei como quem escuta pela enéssima vez a música mais linda desse mundo. Agradecida por Deus ter tocado seu coração, serenamente ouvirei a música da vida tocar uma vez mais. Enquanto você me falar sentirei angústia e tristeza, sabendo que em muitos momentos de medo, dor e aflição, eu nem ao menos estive lá... Mandarei estas ideias embora lembrando que eu sempre acreditei em você, e no fundo sempre soube que eras muito maior que qualquer toque duro da vida, que superaria com paixão e coragem as angústias e a solidão trazidas a cada nova manhã, refazendo teus dias nublados e tediosos. Que mesmo detestando todas as pessoas que estão felizes – e diabos! Você nem mesmo sabe como elas o são – ainda assim você não se negaria a desperdiçar o sorriso tímido com um estranho. Que mesmo com a noite entrando no seu quarto, e você sozinho, se vendo sem horizonte algum, refazendo as mesmas tão conhecidas coisas, oculto do resto da casa, chateado pela incompreensão que te rodeia, sendo educado apenas por ser, a noite não te comerá os sonhos, em algum lugar de ti ainda poderá lembrá-los como meras ideias bobas que um dia tivestes sobre um mundo que nem ao mesmo vale a pena. Se arrastando para a cama na prece desesperada de que Deus continue te dando motivos para acordar.
Chegará o momento em que derrotado com o mundo e com tudo que você imaginou para ele, começará a observar o cotidiano, no início apenas para constatar que você está correto e nada mudou, e nem tem chances de mudar. Então surgirão pequenas coisas, e as notará cada vez mais, como quem desocupado se distrai, descobrirá que mesmo para tudo se manter exato e odioso, é necessário pequenos truques de vida, verá como as pessoas ficam presas em seus padrões e o quanto elas estão protegidas assim, e que no fundo – Tudo Bem – você não gostaria de vê-las sofrendo de verdade. Passará á, além de entendê-las, compreendê-las, então verá que inexplicavelmente, por menos que essas pessoas façam algo do mundo algo melhor e fantástico, elas são capazes de pequenos gestos de amor, gestos esses que mantém o mundo existindo para que pessoas insatisfeitas como você existam e o observem... Você poderá aceitá-las, não se incomodará mais com estar tão próximo e tentará, por vezes, ajudá-las, escutando-as e falando de modo simples e honesto. Então perceberá que apesar de seres assim, tão diferente, inteligente, de gosto refinado, ideias críticas e atuais, perceberá que também você não faz nada com isso para o mundo possa ser aquele lugar fantástico que você um dia sonhou, e não escapará da resposta, aquela, óbvia e dolorosa, de que no fundo você nem é tão diferente das pessoas que tanto detesta... Olhará para todos pensando que estamos no mesmo barco, apenas navegando no mundo, sem ter a coragem e a fé de atracar em alto-mar e começar a construir uma ilha fantástica, toda feita de homens e sonhos.
Você se dará conta do quanto é difícil e enlouquecedor começar do nada, então não culpará tanto os outros por simplesmente seguirem na mesma tola fórmula cotidiana, agora ficará aguardando o momento, a oportunidade única que será perfeita para iniciar a sua ilha, grão a grão, expectativa a expectativa, segurando no peito a falta de certeza pela simples concretude da fé, navegando num oceano confuso e por vezes triste e até feio, teu olhar guardará cada pequeno detalhe desejoso de algo mais, então você começará a chegar perto, e tocar com a mão do olhar – rostos, palavras, corpos, gestos, beijos, danças – vivendo com cautela e dignidade, até se deparar com aquela situação profunda, sentindo pulsar no peito o potencial fabuloso guardado ali, naquela pequena porção de algo que você não sabe bem o que é, embora saiba ser. E sabendo com os ossos que não pode deixar passar, não pode porque sabe que o oceano é imenso e doido e que a cada nova corrente marinha tudo muda e se dispersa, agudamente sentirá em cada poro de sua essência que é aquilo: a oportunidade única, está ali, sozinha em pleno oceano, então num ímpeto desesperado e irracional você se joga com os braços da alma estendidos em direção a pura esperança de que você não esteja errado. Num pulo só e insano cobrirá distâncias indizíveis, posto que jamais vividas, fazendo finalmente algo diferente, se soltando da sua pequena caravela, que de sólida torna-se-á apenas um barco fantasma, assombrando o oceano de marinheiros violáceos e esgotados. Enquanto está simplesmente maravilhado com o que fez e frente a frente com um sorriso instantâneo, mas tão genuíno que sabes: aquilo realmente é o grão que faz parte da porção de areia primeva de tua ilha sonhada. O apreciará com todo o coração, celebrará a própria celebração que este insano encontro propiciou. Mesmo sabendo que agora não há mais volta, a sua caravela já se foi, e se a ver por aí, será na névoa de lembranças extraviadas, com outros olhos teus. Logo se dará conta que não é possível construir uma ilha com uma porção remota de areia, como também saberá que apenas outras porções tão belas quanto a que tens em mãos te farão o feliz dono de um sonho real. Você será um caçador de sonhos, que mesmo impossíveis de serem pegos pelos dedos lógicos, são coletados pelo coração, você sentirá que a cada nova porção de areia encontrada, intimamente enamorada, a cada novo pulo insano e fervoroso, seu coração estará mais e mais pleno, confiante, amoroso e curioso. Estará tão vivo que não apenas se sentirá capaz de qualquer coisa, como fará qualquer coisa para manter a vida correndo nas artérias, pulsando a toques intensos nas batidas do seu coração. Sorrirá bobo e indolente, sabendo que a vida agora é qualquer coisa de teu desejo, sabendo que cada pulo suicida e desesperado te transformou num exímio caçador de sonhos, então você entende: o mundo é seu e você dele, nada, nem fantasma algum poderá mudar isso.
E andará por aí, pisando em terra firme, terra que você mesmo construiu a cada porção de areia singelamente carregada nas palmas da mão. Jamais levando mais do que pode e nem mais querendo do que já seja. E andando nossos caminhos se encontrarão, e você irá sorrir, entendendo finalmente o que, um dia, quando sua caravela passava por minha ilha, te disse: que os verdadeiros poemas são escritos no silêncio de um suspiro mudo, rabiscados a fogo no coração e publicados na alma. Então baixará os olhos, feliz e envergonhado ao mesmo tempo, por não ter se dado conta antes... Te abraçarei, nada direi, apenas para lembrar que já é tarde para ter vergonha, que os sonhos são assim mesmo, confundem, as vezes fantasmas, as vezes certezas. Olharei em teus olhos para que você saiba que estou pronta, pegue minha mão e me guie, ouvirei com amor a música que Deus compôs contigo, levará o tempo que precisar, na noite e no dia andaremos enquanto você canta para mim. Qualquer hora nos daremos adeus uma vez mais, te contarei que joguei fora a fita métrica: você não tem mais tamanho e nossos mundos já são um só. Você rirá alto e me fará um pequeno carinho.
Mas hoje, eu sei – você sorri incrédulo, pensando que sou maluca, enquanto eu meneio a cabeça, sorrio sozinha, esperando o dia que você voltará do mar para mim, sem pesos e normas, morais e histórias, iluminando o crepúsculo com sua beleza nada elementar e serena; agora enquanto caminho e você ainda navega, meu coração já sabe que nossos passos um dia se unirão envoltos em grãos de areia macios e quentes, e desde já saberei que você não me entende, por isso sorrio muda e cúmplice:

Dos verdadeiros poemas, serão os de amor os mais belos.
Te escrevo aqui. A fogo.
Flameja o peito.
De repente sinto o mundo meu e eu dele, rápido e tão puro
– pronto –
 a alma minha já foi dizer ao mundo que jamais vai ser pouco o tanto que te amo nesse mar profundo.

Até mais.

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