sábado, 17 de outubro de 2009

Parábola de sexta-feira

 Era uma vez uma menina que não gostava de dormir. Nunca, nunca ela deixava o sono vir, e ficava recitando poesias mentalmente, criava personagens, os animava na sombra, sempre, sempre quando a menina finalmente dormia, em seguida abria os olhos e descobria com alegria que já iniciava outro dia...
As velhas manias não somem, chego, já nem é cedo, mas não quero dormir, eu sei, empurrarei o próximo dia com a pontas dos dedos, cravados, seja na escrita, seja na xícara, no silêncio de letras de leito, nas bagunças das cobertas que nunca acabam. 
Hoje, não quero dormir porquê estou chateada... não gosto de ver ninguém sofrer, porque começo a pensar em tristeza, em coisas que machucam, no mal que já me fiz, na derrilição total que cheguei, nas pessoas que abandonei, as que eu nunca pude dar adeus... penso nos momentos de desengano, nas ansiedades, e até, com muita dificuldade na solidão e dor aterradora de entregar a sorte a morte. E acordar, não-morrido, como quem profundamente magoado e sujo tem que olhar pro mundo. E de como é estar realmente tão profunda e desesperadamente só ao ponto de não sentir, nem raiva, nem auto-comiseração, nem sono, nem fome, andar ou estar paralítico: que se faz com um coração sem pernas?
Estar tão profunda e irreversivelmente só, que escutar Yoñlu nuca soará triste o suficiente, nem qualquer outra música poderá te levar mais pra baixo, porque você já está lá. Simples.
Estar tão só, que nenhum drama verdadeiramente vivido por qualquer amigo te comoverá ao ponto de ressentir juntamente... que você só vê uma pessoa fazendo escolhas, e escolhendo se machucar ou deixar que o machuquem. Estar tão só e ver a morte chegar e levar alguém que você ama inequivocadamente, e não ter uma lágrima sua pra dor fugir um pouquinho, porque você já não sabe mais o que é chorar, e nem sabe mais o que é doer, tem o corpo e o espírito amortecidos, dormentes, o mundo pode cair e continuar caindo ao seu redor como vem acontecendo, você apenas fecha os olhos na esperança incrédula de nunca mais abrí-los. Os dias passam, os ossos já deixaram de doer, o corpo, casca opaca, aceita, cortes, aceita inerte, tanto faz se cala, se grita, papel, papel, a carne parece ter sido comida, mastigada pelos acontecimentos, digerida pelas escolhas, troveja raios extintos, como quem olha com indiferença alguém que em muito foi querido.
Sem sonhos, sem gosto, em busca de sabor nenhum, a vida parte, estar só é estar sem você mesmo... quando não resta, porque sua mão isenta de calor, porque seu rosto não esboça, a voz morta, sem esforço em fazer esforço ou desfazer, e os olhos, os olhos já não lhe dizem mais nada, então você senta e escreve o fim.
FIM.



E acorda.
E continua vendo, e faz um esforço desumano pra voltar pra isso que chamam de vida, a cada dia que alguém simplesmente levanta e tem fé, você levanta acreditando, e querendo acreditar, e continua só, porque é muito triste dividir essas coisas, e não quer ninguém chateado porque você mesmo já se chateou muito com isso, então faz as coisas sem fazer, acreditando que é necessário manter, e sozinho vai meditando e se buscando, e descobrindo sutilezas impensáveis, de sentimentos, emoções, reações químicas e biológicas, é o corpo uma fábrica de possibilidades. E como quem não sentia calor, descobre como uma célula repassa à outra a luminosidade de um estímulo, então toca com vagar e concentração a parede, e começa a imaginar como um toque sozinho constrói um mundo que irá abrigar uma menina que nunca quer dormir, pra quem a vida é preto e branco, é necessário que haja cores, e formas, e poemas, e músicas. Porque é necessário reaprender a tocar, para reaprender a sentir...
Assim, como quem é liso, branco, vai reviver, e não saberá o que cada toque da vida produz, mas é justamente por acreditar que precisa saber que será o mais dócil, compreensivo e amoroso bom amigo que todos precisam. Porque você aprende com os sentimentos, emoções e atos dos outros, e é engraçado voltar a precisar das pessoas, porém sabendo porque as precisa e resguarda. É o outro o espelho que necessitas para fugir de tua cegueira solitária, e observando guardará, amará inexplicavelmente determinadas características e gestos, mas passará sempre sem olhos pelos próprios atos, e isso machucará... então será necessário se estudar e analisar, e deixar as coisas um pouco mais frias. E ainda manterá distâncias perenes, pois embora veja e saiba, não é, porque não se vê. Um cego que carrega o coração na mão, porque precisa tateá-lo e ver quais sentimentos desenham as formas suas.


Te olho, aí, parado, atrofiado no próprio sentimento, se eu fechar os olhos, posso virar as costas sem nem dar-te adeus, soará duro, indiferente, cruel... Respiro fundo: 'preciso acreditar.'
Porque eu sei, se ficares só, serás obrigado a tatear no teu escuro, e assim guardar com maior zelo o que a vida te dá. Não posso chorar tuas lágrimas, nem catar teu sono sumido na calçada, ou trazer de volta a pessoa amada, matar teus medos de afastamento e te despachar nessa viagem, só tua, só tua. Não fiques triste, a solidão não é de todo má, olhe como quem não vê: tem coisas que é melhor se viver só. 



Caminho na multidão que alarga passos de uma suposta alegria, não me sinto triste, ponho as mãos nos bolsos e vou contando luzes, é só a mesma pergunta: por quê afinal, não podemos nos dar as mãos para viver o mal?
 

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