segunda-feira, 12 de outubro de 2009

_____________pluie

Saímos para andar na chuva, saímos para andar, e começou a chover, você veio me contar aquelas coisas todas, de seus planos, as antigas garotas, a mãe que nunca mudou, no que seu irmão se transformou... nem sei mais a quantos anos te digo: 'deixa o passado passar.' Mas então também já é outro tempo, e nesses anos todos, eu sei, você não vai mudar, e nem eu me cansarei mais, nem tentarei explicar o que no fundo você já sabe, e apenas não consegue mudar...
E você vai começar a ficar preocupado por eu estar me molhando, e não vai dizer nada para não me zangar com as proteções que não gosto... sabe, depois de algum tempo, e você já deve ter imaginado, essa chuva até que me faz bem, e podemos sempre rir do meu joelho - aquele que você diz ser perseguido por acidentes insólitos - e você ri ainda mais dizendo que não há nada de estranho caipirinha de abacaxi, skate e danos, e vou deixar que rias sem me zangar, afinal era você que tava lá, não caí sozinha, e essa chuva, e esse tchau, esse que você sabe que não quero dar porque nunca quero me despedir. Eu posso pegar na sua mão, você sempre vai me entender, mais um dálmata novo pra levarmos pro parque, você e meu gato, eu e suas cadelas rs... Provavelmente você sabe que não vou levar a sério nenhum conselho seu, mas vou escutá-los - só o amor constrói o respeito que por ti tenho - e já me conheces tão obviamente que até isso sabes: não me zangarei, nem argumentarei, e nem te contradirei, a voz das tuas histórias sempre encontram espaço na minha memória.
Sei porque você me olha: tá bom, eu não sei quem vai dizer isso dessa vez. - Vem cá, por quê a gente não casa?
E eu vou dizer como sempre, no final, que não sei.
Que te conheci de pé engessado, skate parado, no mesmo castigo de escola, e soube que nunca mais sairias da minha vida, foi o primeiro riso cúmplice, primeira piada mórbida, e eu te dizendo: não gosto de garotos assim. E você achando que eu era mais uma patricinha altamente convecida pronta pra te alfinetar. E fazer o que se as implicâncias mútuas apenas nos aproximaram, se nossos amigos começaram a andar juntos, e acabamos juntos, olhando um pro outro num daqueles churras loucos qualquer, tendo que conversar. E das coisas todas, vieram os nomes e os apelidos, o Pantolfo, o menino toty-toty, as viagens, as saudades, o tempo, as coisas todas que construímos, teu cheiro, manias, primeiro o café, depois a lente, essas meninas que você acha que não servem, meus namorados que te detestam, cada fruta que gosto e você conhece, o iogurte de manhã, a ponta da cama, os melhores livros, a religião, as perguntas, meu cabelo entre teus dedos, aquela noite em que, aterrados, vimos as piores coisas acontecer, as lágrimas que você deixou-me ter, e fingiu, como sempre finge tão bem, que sou forte e estou sempre bem, e daquela tarde depois de dois anos, em que nos encontramos sem ver nada e nem dizer, pra quê?!
Das preocupações que você sempre tem, e as que odeio que tenhas, de me acordar de leve, pra dizer que nunca sabe como agir, e agir tão naturalmente bem...

A chuva tá ficando forte, o tchau cada vez mais perto, e eu nunca vou saber responder essa pergunta ou as tantas outras que a gente nem faz... Tá tarde, você pode por favor, não mostrar que se importa com meu joelho ou com essa gripe que tá me acabando? E não faça os convites que eu não vou aceitar, e me deixe nessa minha irreversível auto-suficiência fictícia, porque eu sei que você me ama e vai me deixar seguir e ser como sou. Incompleta, sempre me ferindo, e também sempre mudando, e quanto mais eu mudo mais você me entende, e quanto mais você permanece mais te compreendo...
E é, eu sei, a gente se vê, mas nem tanto que as coisas doam ou mudem, nem tanto que as perguntas sejam mais difíceis ou as orações mais necessárias, você sabe que se pudesse pararia de andar na chuva sem me importar e aqueceria tuas ideias de lar, de sonhos, dos gestos metódicos e cheio de significados, e riria mais, e não  ficaria podre de bêbada no terraço, e acabaria com meu joelho numa aposta estúpida, porque se eu tivesse escolhido essa resposta, não precisaria criar outras dúvidas pra você não me ter. A única parte feia da nossa história é contada por mim: desculpa ser essa que sabes que não sou só pra que você não tenha respostas.
Pegue o ônibus, em algum lugar, te dou adeus protegida da chuva, cuidando do amor que você quis me dar.

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