terça-feira, 10 de novembro de 2009

°°°°petits mots de tous les jours°°°°



e as pessoas e os pedaços de música, poesia de som, palavra de nota composta em cifra - me Acorde
que me ficam ressoando na concha da memória
pra lembrar
e lembrar que preciso esquecer
 
certas músicas
como convém
certas pessoas
como insistem em ser
amando
julgando e jogando 
e por mais parecidas 
que as palavras sejam
que seus sons mentais submetam
são tão diferentes em si
os atos
que essas deixam...


foi quando a porta do quarto abriu, de leve, primeiro uma fresta de frase
'acordada lendo ou dormindo [?] gabi?'
'sonhando acordada que estarei dormindo daqui a dois parágrafos, rs'
e era tão simples não me fechar, e empurrar o sono como tantas outras vezes, 
passam os braços e pernas pela porta, em mãos
aquela forma curva que gosto tanto, sorrio com o canto do olho
'afina?' [nem em sonho, tão desafinada comigo mesma...que sonho]
'ha, sério? nunca vai rolar, mileanos que não encosto num violão.' [resquícios de namoro, instrumentos pelo quarto, festas de quinta a domingo, música ecoando pelos lados, e eu curiosa sempre vendo algo que não é pra ser visto, mas antes sentido: música.]
'ah, consegue sim, é só tu fazer aquilo de ficar brincando, tu faz mais sempre, sempre que senta na sala, antes do house fica dedilhando e nem vê né...[?]'
'ah, mas isso? isso é só mania né.'
'tu me disse que fez faculdade de arte porque tinha mania de desenhar em tudo..'
'mania às vezes rende, mas teu ouvido é melhor que o meu, tenho olhos que funcionam, vivo de ver.
'e sabe escrever, e desenhar e ganhar discussão'
me dou por vencida, discutir quando ia dormir e ainda por cima nua, não dá.
'me joga essa camiseta'
'gabi?'
 

me viro, tempo de ouvir o click da câmera.
'palhaço'
'preguiçosa'
ele fica brincando com a câmera, é estranho como vc pode se ver em outra pessoa com tão pouco tempo para influenciar, ele é ótimo em tudo q toque, sempre penso, 'brinco' como ele mesmo diz, um tempo, me visto, falamos, ele gosta do desenho dos brincos, acha que a orelha são várias bolinhas e 'como é q tu diz mesmo, gabi?' 'elipses'  'é, isso, bolinhas e elipses' e diz ser uma pena a gente não poder se desenhar o tempo [concordo]. sentanda ao sol sem tempo, domingo que serpeja, ouvindo sobre o melhor guitarrista do mundo, segundo ele, solos alucinantes - única pessoa q consegue me fotografar sem que eu sinta vontade de sumir, talvez porque como eu, ele também fique clicando aleatoriamente, dispersando imagens. 
 
senta do meu lado, e fica distraído, se incomoda, levanta, inquieto, nessa sempre insatisfação e falta de foco que a adolescência traz 'vontade mesmo a gente só tem pelo que gosta.' e são tantas as coisas pra gostar, aprender e rejeitar, aprender a gostar e a rejeitar. estranho. somos tão parecidos e tão diferentes, às vezes uma mesma vontade nos junta, e ele passa pela porta do quarto, sempre trazendo alguma coisa que no final não é nada, é um violão que ele quase nunca toca, um skate que só usa pra cruzar o bairro, um filme que pensa que posso gostar, é ficar me perguntando impertinências durante aquela uma hora que fico burra em frente a luz da TV, as fotos que tira são as palavras que não diz, e acho que só eu entendo isso como um 'te amo e gosto de ficar por perto'.
me sinto estranha, às vezes contigo não sei quem sou, não sou tua mãe, mas sou a única que pode te dizer coisas sobre ela, músicas, filmes, histórias de quando eras só um bebê, nem sei quem sou, mas tenho que segurar tua mão, cuidar teus horários, teus modos, e te dizer coisas que nem sempre gosto...
te olho aí inquieto com braços e pernas que parecem ter vontade própria
lembro dela
nem tem como ser diferente, teus traços
cada vez mais fixos a trazem a tona
e por vezes encontro em ti um olhar que tão bem conheço
e te amo, e nem teria como ser diferente
nesse domingo eu percebo que sempre vou amar qualquer coisa que a tenha
um tom de azul de uma blusa
uma tatuagem no pescoço
bolinhas e elipses
e tu
 
meu maior mistério pra descobrir quem sou 
quando estou contigo

e agora não parece mais estranho
essa intimidade nossa
fotografias e noites de pipoca
break e riso, domingos de sol,
 
nossos momentos
nesse domingo percebo
que mesmo sem me saber
nossa história também está sendo escrita
percebo
domingo
que não tem como ser diferente
amarei qualquer coisa tua
presente
ou imaginada
dita
ou apenas mostrada
'mais je n'ais pa su, que ma chanson et faite de tout petits mots, ceux de tous les jours'
eu não sabia, que minha canção era feita de pequenas palavras, essas de todos os dias.
 abre a porta, a gente brinca de ouvir
essas palavras loucas
 

 [estou te escrevendo em mim]







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