terça-feira, 30 de março de 2010

Bebericamos na varanda §°¨




Ei, lembra? Chegou aquele ar calmo, aquela brisa ventada que só o outono , aquela luz de pouco, que desfoca contornos, e parece aumentar a copa das árvores, dando-lhes um semblante manhoso, e é, o outono,  era eu pensando em você, e você me mandando essa mensagem
“ A felicidade é, sem dúvida, a coisa mais próxima da tristeza, neste mundo.”           

E eu pensando: é, ela sabe que o inverno não está longe... Mas ele ainda não chegou, ah, ainda não, ainda há a possibilidade de desfrutar do lanche no Armazém da Esquina, que cruzar a República sem encolher a cabeça entre os ombros, fechando os casacos imaginários, que nunca são suficientes, o gasômetro ainda oferece belas fotos e passeios, a Olavo Billac está cheia de chorões, os jacarandás sem flores margeiam os casarões, há novos bares engraçadinhos e os velhos e bons de sempre... E cá vou falando de Porto Alegre, por que será que a pessoa que mais me lembra essa cidade é justo essa gata perdida? Essa garota de mochila transitando em alguma rua de Curitiba, odiando uns tantos desenganos, amando bobagens, brincando com o cardápio da Casa Lilás e rindo de todas coisas simples e bonitas.

“Aizita traz o chá, bebericamos na varanda (...) manhãs frias, noites quentes, teu casaco xadrez, o meu roxo, e as pessoas todas enganadas, pensando que temos algum lance, quem sabe, quem há de compreender o que meu olhar encontra no teu, que riso é esse suspenso na alma, lido no espírito de tudo que não dizemos, porque te amo, e porque é sempre um erro pensarem que precisas mais do que ser amada como és, e não pelo que podes vir a ser, um desejo realizado, e tão maior e igual erro, é pensar que preciso algo mais do que amar-te indelével.  Tens a cara e os trejeitos da minha cidade e a simplicidade surpreendente sabedora da minha alma. Parece mesmo que te conheço desde um sempre hierárquico, como se a vida toda tivéssemos divido as mesmas paredes sob aquele teto inexistente onde o que mais víamos eram estrelas e luas, essa ligação perdida nos tempos e estradas, pousos, partidas e chegadas. Ainda trago vívida a imagem de nosso último capuccino, na banca dos estudantes, naquela noite com gosto de desgosto e incertezas, das últimas perguntas, aquelas, as mesmas que ficaram sem respostas, tua mão brincando na borda do pires , guardo adormecido o cheirinho do último abraço que me destes: o acordo sempre que estou sem sono e cheia de perguntas tontas, ele me faz companhia, e juntos nos velamos...
Que a Tristeza é parente da Felicidade, me dizes... Te creio. Por trás do ovo apunhalado por certo houve um nascimento não sabido, e é do que se faz a obra afinal: de todos nascimentos não sabidos à uma escolha de fim: para te mostrar o quanto estamos perto daquele balanço roxo, que te digo: ainda há o outono. E querendo ou não, é depois dele, no Inverno, que acontecem nossos melhores planos, aqueles que nem sabíamos que existiam, mas que de tão surpreendentes e maravilhosos, nos parecem tão nossos que não há como negá-los uma aleatória autoria.
“E como ficou esse post?”                                     
Aaah, meu bem, tá ficando, cheio de você, pontilhado de mim. E no meio do caminho tudo foi amor, tristeza opaca e alegrias insensatas... 

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