segunda-feira, 1 de março de 2010

her name is Alice



Eles caminhavam pelo extenso gramado, com declives e pequenos sulcos, os pés silenciosos se adaptavam, caminhavam porque voltavam, porque tinham ido, ele alguns anos mais velho, ela, alguns anos mais nova. Não importava, caminhavam num silêncio tão sutil como claro: era óbvio que se entendiam. E de fato era bom que ela tivesse alguém assim: que a entendesse quando ela mesma não se entendia. Passaram por árvores, falaram de desenhos de sombra, tons de verde, marcas no solo, e por vezes também viam flores - tá vendo aquela marca ali? Que ninguém sabe de onde veio? É a vida, ela surge porque surge, porque sua razão principal é ser, estar é o verbo segundo, que nasceu para dizer como estamos enquanto somos. Você pode dizer que ela está estranha, que é uma marca abandonada, no solo, que está sem motivo de ser, que está sem saber quanto tempo existirá. Mas você poderá dizer que ela é abandonada? Pode dizer que ela é estranha só por ser como é? Pode dizer que ela é o tempo que existir?
- e a resposta vai ser: não. Não pode, porque graças, Deus não deu aos homens verbos suficientes para que invertam na linguagem o verdadeiro significado da vida.
Caminhavam sem palavras exatas, ele um pouco mais velho, ela, alguns anos mais nova, tão nova e tão cheia de pesos e marcas, essa era a primeira impressão que se tinha ao ver a garota caminhar. mas então ele olhava com mais atenção, sozinha estando junto, a garota caminha com segurança, embora não saiba onde o caminho vá dar, embora escolha as trilhas mais pela quantidade de luz que o caminho mostra do que pela direção, seus pés mantêm silêncio, delicados eles parecem não querer despertar nada, nada que já não esteja desperto a sua espera, e embora diga que nada sabe de nada, ele sabe - ela encontrou um caminho, pode não ser claro, pode ter raízes confusas, que sobem e descem tantas vezes que a vista se perde, pode ter chovido tanto que a terra preserva a marca de temporais antigos, pode haver galhos caídos pelo caminho, podas que enfim, cedo ou tarde acontecem, são necessárias para que mais viceje. E que mesmo sem saber a que, ou porquê, ela segue, há uma forte certeza de que o caminho é um caminho, e que guarda a cada momento um momento. 
Talvez ele sorria pensando que o caminho poderia ser mais curto, ou que a garota poderia dar menos menos voltas, mas enfim ele pensa - talvez tenha sido bom, tê-la levado pra ver estrelas, ter lhe dito dos ventos que sopram na sua terra, tê-la levado para ver e sentir a mudança das marés, ter contado tantas histórias sobre animais, lugares e instintos, ter dividido fielmente a sensação de saltar de helicóptero no meio da noite, sentir que algo lhe atravessa o joelho e só despertar pela manhã, cercado de vida e dor. Talvez tenha sido bom ensiná-la a caçar, mesmo que tudo que ela precise lhe chegue ás mãos através de palavras, palavras, talvez tenha sido bom deixar que logo ela lesse aquilo do que tinha curiosidade, ele gostava, de dar o livro certo, na hora certa, um pequeno jogo de adivinhas sem charadas, cada acerto era a certeza de saber o que lhe passava a alma. O quanto ele mesmo, sentira de medo, conflito, dor e solidão. Por que eram solitários por instinto? Porque tinham essa estrela de descobrir as coisas por si só, porque faziam longos caminhos como eremitas, porque eram estranhamente tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo? Como uma lua e um sol, sem encontro, mas de existência análoga e íntima?
Acabava o caminho, ela parara, olhara o percuso e agora se voltava, dizia com os olhos: é hora de voltar.
Sem saber porque, ele a escuta perguntar coisas - como vai o jardim? e o cachorro? - perguntas bobas, que ele sabe ser a senha: sim, o tempo todo ela soube cada pensamento dele, durante todo o caminho, ela sabia o quanto ele pensava nela, e vinha agora nessas perguntas, dizer que não só não havia constrangimento, como estava disposta a abrir mais de si.
- O jardim. Ah, o jardim, às vezes ele pensava que só havia feito aquele jardim por nada, pelos outros ou como gostava de dizer: para si. Mas, no fundo, sabia, havia feito aquele jardim porque era a continuação do antigo quarto dessa garota, que era tão parecido com ela como o possível, uma flor eventual, surgida sem que ninguém esperasse flor por aqueles dias, músicas nos sons de bambu, cada planta ocupando um espaço especialmente desenhando, nos dias de cactos, nos dias de chuva, na estação dos pássaros, na umidade do inverno e na dureza do frio, o jardim se transformava, mas vivia o ano todo, e o ano todo mudava. E era ali que ela caminhava quando o vistava, e mesmo que muitos dias se passassem sem que a visse ali, ela sabia o que havia mudado em cada planta, sentada na janela, não raro o chamava de preguiçoso e dizia que o jardim podia crescer mais.
Mas e como fazer uma garota teimosa dessas crescer mais? Era a pergunta dele, pronta ela está, por que não cresce? Será que fui mesmo tão preguisoço assim? 

Caminham, é a primeira vez que se tocam, ela lhe abraça e caminham juntos, quando como que um pensamento mais do vento e das ávores, ela lhe olha e diz: é preciso ter momentos de paz, como esse, pra sentir a engrenagem das coisas, não? Acho que o simples acontece quando respiramos intimamente.

De repente é como se o gramado ficasse mais verde, as árvores mais fortes, como se cada micro ser daquele caminho ganhasse o seu momento ao mesmo tempo, e como tudo parecia vivo e em movimento. Ele ri, e diz que a paz é realmente sempre necessária. Ela pára, olha pro horizonte e diz: sabes, sempre odiei paisagens -mas e por que? - porque paisagem é coisa do homem, renascentista, natureza não é estática, passível de ser caracterizada simplesmente pelo olhar. Mesmo nesse silêncio sem mudança aos olhos, tudo ali tá mais vivo do que poucos homens que tanto a desenharam, talvez estiveram um dia em suas vidas.
Ele, fica em silêncio, depois olha pro chão, depois olha pra essa figura curiosa, tão nova, que ás vezes parece tão frágil...  então tem certeza, que afinal não foi preguiçoso, e que nem ela o é. Que aquilo que parece não mudar e nem crescer, está vivo, e que as mudanças prosseguem em seu ritmo e lugar, independente do que vejam os olhos.

Eles caminham, ele um pouco mais velho, ela, alguns anos mais nova, mas ambos atravessam o mesmo gramado, existem no mesmo tempo e continuam vivos.




her name is Alice

Nenhum comentário:

Postar um comentário

i Sem PingOS