quarta-feira, 3 de março de 2010

_____março



hoje é dia 3
março começou
na contra-mão literal do mês: tem um monte de coisa que terminou em mim
não tenho jazz
só vontades
ontem kerouac
hoje um jasmim qualquer
perdido num abraço
nem dado, nem dado
saí a noite, escureci, brilhei e cativei
março começou
e minhas seduções também
falamos de trabalho, tão simples, tão simples
e tão belo, belo
 e tão beat, não é mesmo? tão beat.
sem contemplações santas
te sinto em mim
sinto todo o trabalho de Deus
ensinando meu corpo a querer o teu
março começou
e eu também
a sentir desejos e coisas que atrasei no mês passado
às vezes penduro essas e outras contas, coisas
li todas tuas histórias, ri contigo das noites sozinho e ilusórias
e quando é o riso que se guarda de algo difícil
então como é bom ter com quem rir
sem aguardar respostas, pois as mesmas se deitam na cama
de graça, se ofertam
pegas em minhas mãos
março começou
contorno teus dedos
frémito e desejo
tens teus espaços, sem conheceres meus jeitos
no escuro se cria luz
na criação se cria, e como se cria
avessos de histórias
vês nos meus olhos: entendo tuas memórias.
e dizes gostar do que desconhece, só porque estou lá
e pra que eu fique mais, até te arriscas
a dizer: que vai gostar cada vez sempre mais
me arrancas uma respiração, estremeço e não nego:
estou em danação
março recém começou
e a santa já me deixa sem premonição
sou a carne pungente, o arrepio calado, a vontade atraída, o desejo convulso, calor de março
calor sem calma, calor que sobe a pele, doma com cegueira todos os sentidos
amordaça minha voz, ensurdece meus ouvidos, te escuto com o corpo, e de gosto nada nítido, só essa coisa de sentir o sal da tua pele escorregando pelas minhas mãos, salgando meu rosto, entontecendo a coluna, me torno ser, criatura abissal, que de membros se tornam apenas tentáculos buscando circundar teu corpo  na mais exata profundidade de meu desejo, nada me sabes do que sabes, as palavras todas, as artes intactas, as conversas longas, a solidão aplacada, hoje silêncio, amanhã som, rezas ávido em mim o verbo, sopro de vida, carinho sem porém, voo em meu corpo querendo tuas nuvens, querendo ver teu sol e me incendiar nos raios que evocas, abro a boca e o todo me provoca, não sei que parte de teu corpo mais me apetece, te quero todo, e no todo te parto, parte tua alcança o mais fundo de mim, me choco com tua presença
março começou
as pernas moles, a coberta que fugiu da cama, as roupas ausentes, as persianas latentes, teu suspiro rasgado, meus seios em sombra, uma sombra ampla colhendo o gozo, esplanando o peito, resguardo esse momento, antes que minha fome de ti cresça, cresça rompendo paredes e posições, movimentos transitórios, rotacionais, a alma voa porque o corpo é deveras terreno, e nessa terra árdua que saciamos tal cólera sôfrega e irracional, rodamos a noite toda, seres humanos, porém animais cheios de encanto, abóbada nebulosa teu rosto mais de uma vez me surgiu, torpe entre minhas mãos ávidas, te querendo e te tendo no querer mais 
março começou
sem jazz
sem kerouc
sou eu simples
incógnita passageira de Deus
singrando o mundo, nessa parte que me cabe
levantando com os pés mudos
as vontades inquietas, te olhando dormir
como quem mora num segredo incrível
recoberto pela paz análoga do existir apenas por ser
é
março começou
escuto os carros na avenida, escuto vozes e secreções cidadãs
sou eu, essa
sem querer te despertar desse segredo divino
abotoo minha camisa
e saio sozinha, óculos escuro em mãos
na dúvida
protejo os olhos
 essa luz de março me parece forte por demais



Escrevo porque o instante existe e minha vida está completa/hoje alegre/porém sempre poeta


6 comentários:

  1. No fim das contas (e dos contos), se coisas acabam, se nada é contínuo, tudo começa, tudo parte (se parte também, quando é hora) e a largada pra vida é tudo que nos tange na brincadeira de ser.

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  2. e tudo fica amarello, não cinema mudo, apenas as expressões daquela que um dia irá falar ao pé do ouvido que sente um calor imenso em seu peito e não aguenta mais esse grito calado que está em sua garganta.


    puta que me pariu, que coisa limadmente cafajeste você escreveu.

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  3. ah, não fique sem o jazz.
    terminei hoje minha longa peregrinacao pela estrada de jack kerouac. e nesses ultimos dias o que tem me alimentado é o jazz, só nessa semana foram 8 cd's.
    acho que isso ja responde tua pergunta se estou bem. e digo ainda, sinta-se bem por essas doses de jazz que valeram pra nós dois. rs

    ai, quero sair e procurar um jazz puro como aquele, um bop louco...

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  4. "como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tem agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - Pop! - pode-se ver um brilho azul intenso até que todos "aaaaaah!"(...) Jack Kerouac, On the Road -- Trecho lido com muito carinho para essa pessoa linda em minha vida, e amigo queridíssimo, Samuel, numa noite qualquer, de frio em Curitiba, a luz do display do celular.
    Obrigada por ter lido, Kerouac ;D
    Eu, você, o mundo, e a geração beat, agradecemos!

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  5. Roberto,

    "Uma série de circunstâncias absolutamente sem sentido fizeram com que Dean viesse a meu encontro e, da mesma forma, com que eu me mandasse com ele, sem o menor motivo"

    E não foi exatamente assim que nos encontramos? Numa série de circunstâncias absurdas, de alguma forma fomos empurrados um para o outro, num ritmo alucinado e no seu melhor estilo on the road: escrevendo. Obrigada pela companhia, pelas conversas, pela literatura perversa e tremendamente inteligente, simplicidade pungente de Quintanares, rs... et, quanto a minha cafagestagem a la Dean, bien, às vezes não há mal algum em tirar o melhor de cada personagem, não é mesmo? rs.

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  6. Ing,

    Ah, a menina dos contos...alma beat, caroneira do alabama, não lembro de trecho algum que possua a delicadeza do seu mistério, talvez pelo pouco tempo que conversamos, talvez porque teu porém seja indizível, não sei...
    Mas seguimos, subindo e descendo nessa montanha russa nada abstrata, por vezes meio perdidas, um vento mais forte, uma descida totalmente inesperada, mas Hey garota, ainda somos nós, apesar da confusão, hey, ainda somos nós!!!!

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