terça-feira, 6 de abril de 2010

de rien, mon cher

Eu sei, não foi nada, foi simples, nem quis, nem falei, mostrei, roí as unhas e enrolei as pontas da minha franja enquanto pensava em porquê depois de tanto desinteresse vc ainda me olha... e porque? será que tem a ver com a ideia de eu desejar que você esteja desejando o que nem sei que sou porque se soubesse eu seria exatamente o que você quer?
Ou o simples fato de não poder tocar tua pele morna adormecida e reter na minha banal falta de significado o quanto tu significas para mim?
O que é isso? tempo, poeira, espaço, laços, tua mão que doma meus cabelos rebeldes e meus olhos inquietos enquanto me faz olhar nos olhos do que não vejo, porque não quero te ver me vendo, porque assim o que eu escondo me come enquanto teus lábios devoram meu pescoço e aquecem meu peito de uma fome voraz de mais de ti querer, e assim eu me perco porque apenas sinto no meu corpo o que você não me diz.
Nos movimentos e espasmos, no retroceder e instigar, no xingar com verbo a boca cheia de amor sabido.
De escolhas, por ali, por aqui, te definho e procuro o que não acho pra ver se me encontro no nó que demos, em conflitos que na verdade não temos, mas que precisamos pra nos dar, nos ser e poder segurar na mente o que o corpo não guarda.
E é tão simples e objetivo quando um corpo reage a outro, e as respirações se dirigem de rosto para rosto, em punhos que apenas forçam aquilo que se quer deixar ter, e que no entanto é seguro, está guardado, e o que buscas e o que busco não está em frascos, mas podemos cochilar aqui dentro, da vontade uma da outra de fazer.
De suar ambíguo, no esforço que não é esforço mas mera trajetória natural de corpos tocantes e tocados, o que não é amor mas é vontade, porque queremos, porque o corpo não é algo tolo e infantil que fica discutindo quem tem razão, é o mais simples e genuíno engenho da vida.
Porque todas essas pequenas perguntas são apenas parasitas, se o que vem de longe é a sombra do teu corpo velando o meu, ou os nós dos dedos brancos agarrando com força vontades invisíveis, prescrutando no depois o nada. É ele, o porém partido, de que não há mais nada além de um corpo, de formas, contornos, flexível ao desejo, impotente frente ao calor que emerge vencedor de qualquer falso pudor oculto.
Na garganta seca morre a voz que não precisa ser dita, porque ali na vontade consentida, ficam para trás os velhos tormentos, os maus julgamentos, as supostas vitórias intelectuais, financeiras e sociais, e existe no ato a cor crua de tornar-se um ser involuntário posto que devoto do próprio querer.
Ainda assim, as pessoas insistem em delírios de amor, e comparam sentimentos com sentidos, procurando proporções incabíveis não só pela lógica mas pelo óbvio de que matéria e conceito não se aplicam aos mesmos padrões.
E então se um corpo diz, como saber o que ele fala, se a fala em si é expressão primeva de quase todas contrariedades construídas pelo homem até hoje?


genuíno
audaz
mordaz
perspicaz
rápido
veloz
coerente
preemente
proeminente
controverso
verso

no corpo poeta
os versos se derramam e multiplicam-se na cama dos sentidos
dormem e gozam tantas verdades que razão nenhuma consegue abarcar
porque, pudera
se o corpo mentir
é porque morreu um humano e nasceu mais um idiota hipócrita pra abençoar nossos dias

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