quinta-feira, 8 de abril de 2010

She

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

Foi acordando assim, meio dormindo, meio sonhada, os cabelos inquietos, o frio misturado às ansiedades. ansiedade não vista, não sabida, apenas sentida, se quiser imaginada, tinhas as mãos brancas, e a face que parecia eternamente descansada, lembrava mesmo uma adolescente, e isso não a mudava em nada.
Aos poucos os olhos conseguiam discenir algumas formas, como se o foco ficasse brincando de abrir e fechar, e daí as cores formavam nuvens difusas, como coroas dos objetos que no momento pareciam meramente espalhados. Tateou o teclado com vontade de que ele escrevesse por si e não necessitasse da sua frágil coordenação motora pra isso, vacilou até a cozinha e aqueceu a água para o café, aos poucos lembrava que havia dormido muito pouco, e isso estranhamente nem a incomodava, obedecia ao corpo e suas vontades, cedo ou tarde, adormeceria novamente, mesmo que os trabalhos se empilhassem na montanha de rascunhos e outras coisas pendentes, mesmo que o telefone tocasse, que as pessoas lhe exigem esses ou outros meios termos: dormiria e então seria somente ela e o silêncio habitado de suas ideias.
Tinha uma relação estranha com o sono, que vinha desde os primórdios desta vida: demorava a querer dormir, e quando dormia não gostava de ser acordada. No passo normal de uma vida normal, o não querer dormir acabou ocupado, primeiro pela leitura, depois pelas primeiras festas, depois e mais depois por todos aqueles momentos únicos que a gente sente que tem que viver, e dormir a gente deixa é para depois. E depois pelas angústias da faculdade, ou pela simples febre pululante de conhecimento, notas, trabalhos, mesas de bar, livros, desenhos. E depois, por ela mesma. Ocupar novamente o espaço do não querer dormir, como se a vida pudesse ser esse eterno emendo continuado sem  o sono, seu fiel intervalo. 
Talvez soubesse, que na noite o silêncio é quebrável, mas que no dia somos apenas mais um, mais um ruído disperso nas vontades barulhentas e gritantes do mundo. Só gostava de uma coisa no dormir: poder sonhar.
Sonhar era aquilo que traduzia em outras passagens o mundo inteiro que lhe escapava enquanto insistia em estar acordada. Sonhos bons, Sonhos maus... Eram somente uma amostra das polaridades da mesma dicotomia que ela percebia no cotidiano, embora sonhar lhe trouxesse outros âmagos, era como ver uma linha fina, mas suave que aquela que a aranha destila estender-se em voltas infinitas dentro do impossível, sonhar lhe envolvia a alma, e sonhada era como amanhecia. Assim, cabelos inquietos, sem emitir uma sequer palavra, nada a cortar aquelas finas linhas, tão presentes ainda em sua fisionomia, desenhada no semblante uma calma lúcida, embora ausente de todos os outros instantes.
Esperou o tempo a ser esperado, não mexeu em nada, apenas desgrudava-se pouco a pouco das sensações, dispôs os olhos pelo espaço, enxergava agora mais nítido quaisquer contrastes, e via o gato despretencioso, e ouvia pela primeira vez o dia ruidoso, lembrava-se vagamente de ter trabalhado, frases, cenas, momentos outros não tão longes, mas impossíveis de pegar no agora, olhou para o calendário, pensou em datas, lembrou de dinheiro, pensou que tudo era  nada, o que então dava no mesmo.
Como dar o play numa música aleatória qualquer, e de repente perceber que a distância entre sonho e realidade, entre estar adormecido ou desperto, é muito mais breve e sutil do que se imagina, quando a realidade canta o sonnho acordado.



"Her face is a map of the world, is a map of the world
You can see she's a beautiful girl, she's a beautiful girl
And everything around her is a silver pool of light
People who surround her feel the benefit of it
It makes you calm
She'll hold you captivated in her palm

Suddenly I see(suddenly i see) this is what I wanna be
Suddenly I see(suddenly i see) why the hell it means so much to me
Suddenly I see(suddenly i see) this is what I wanna be
Suddenly I see (suddenly i see)why the hell it means so much to me
(...)
The power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah
She got the power to be
The power to give
The power to see, yeah, yeah
The power to be"

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