quarta-feira, 26 de maio de 2010




Abri as gavetas, tava tudo tão fechado, tão mal e descaradamente guardado. Nem lembrava mais, nem fazia mais diferença o que ali estivesse, abri as gavetas e não foi à toa, pronta pra jogar tudo fora, fosse o que fosse que guardado estivesse já não me interessava mais. Cansada daquela poeira toda que no fim só dava alergia e uma garganta seca, rasgava o respiratório: necessitava urgente de ar.
Queria coisas novas, fosse o que fosse como fosse se fosse, novo, fosse o que fosse se fosse, que estivesse fechado ali com certeza o tempo já teria puído, lambido freneticamente com seu tic-tac incessante que diz e reduz a hora viva morte viva, no fundo com sorte seria um punhado de cinzas ou algo quase invisível e impalpável às mãos. Abri as gavetas, nada concensiosa, fosse o que fosse, iria embora e seria agora. Pros choques, pros medos, pra dúvida, pra dívida, pra quase tudo na vida a gente dá um jeito. Um leve e indistinguível pó se erguia na fraca luz que esgueirava pelas cortinas, e nenhum cheiro de mofo surgiu amargoso e indispensável, nada nem um ocreoso nauseabundo atacava o ar, nada com pontas ou lâminas, feio ou agudo, no fundo do baú para o qual uma chave faltava, haviam somente lembranças. Alguns risos inertes, pedidos esquecidos, desejos calados, como um estalar de dedos seco no silêncio, a verdade era que fosse o que fosse, nem poeira, nem cinza e tão pouco morto estava, mesmo que estático, mesmo que combalido e a parte, nada do que fora deixara de ser. E foi então que um espaço se abriu no estômago e um asco dominou a garganta, era o ar que infiltrado por tanto tempo destrancava agora as vias todas, as respiratórias e as imaginárias, e fazia rodar a cabeça, acelerar o pulso e afastar os pés do chão, comprimi os braços, era preciso estar em algum lugar que não ali, agora, era preciso no  mínimo um pouco de distância, fosse o que fosse aquilo, uma dúvida não havia: era forte. Respirei fundo, um momento sem perdão me tocou os lábios, elevei as mãos, não para me recompor ou buscar o que fosse de mim, mas tentar catar com os dedos a forma do pecado, sentir-lhe o jeito e quem sabe até pergunta-lhe a graça, quem sabe numa tentativa ingênua de desfazer antigas culpas ou apenas pelo mero e cretino critério humano de a tudo querer dar um nome. Sentei-me na cama,surpresa, incrêdula, pelo tudo, pelo nada, pela falta de confissões, pelas orações erradas, e ainda mais, como um ataque, sabia porque as gavetas estavam tão bem fechadas, sabia agora porque desejar que tudo não fosse mais que cinzas e ainda mais porque da coragem de querer se desfazer disso.



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