segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Abri os olhos atrás de um poema
abri os olhos procurando qualquer esquema, fui tateando as paredes da casa, fitando os livros, liguei o computador, fiquei computando a vida/quantos e-mails/atualizações/sacadas criativas
mirei o gato, sorvemos um colóquio mudo, não tenho patas, ele não possui polegares, falamos com os olhos
Pus a água a aquecer, fiquei pensando em Cervantes, naquele alemão alucinado que ilustrou esse livro, olhei as violetas, vi que fazia sol, recolhi os dedos do casaco e experimentei uma maçã.
Nesse meio tempo pensei em amor, ilusão, dor e contradição, pensei em culpa, pensei em coisas para as quais não há desculpa. Depois pensei que a vida é essa, única e contínua e que desculpas não desculpadas não pesam em nada. Lembrei de um poema da Rita Apoena sobre suspiros e invisibilidade, pensei na quantidade de coisas sem porquê existentes no mundo, como poetas, escritores, artistas e músicos, e disso com certeza achei Dom Quixote muito apropriado com seus sonhos de cavaleiro andante. Pensei nas razões inexistentes para o amor, e o fato indubitável do mesmo acontecer de tempos em tempos na vida de qualquer um, me perguntei por que algumas pessoas tinham fé, e outras medo, decidi que ambos funcionavam como desenhos negativo/positivo, face a face embora um pareça escuro e o outro claro, cada um é o outro sem ter como deixar que um viva se o outro morra.
Pensei na vida que levo, lembrei da astúcia que por vezes emerjo, lembrei das noites, bares, pessoas, desconsolos, risos, copos, fotografias e olhares, lembrei que me acostumei a me desacostumar, quieta desenhando, alerta conversando, parada andando, andando sem sair do lugar. Das inúmeras vezes que me aborreci, das tantas outras que me vi alegre com a felicidade...
Parei procurando espaços mágicos, saídas elaboradas, bons meios, finais felizes, então me dei conta do poema que procurava quando abri os olhos:



A minha volta há inúmeros espaços mágicos,
há pontas de magia sem cartas, e cartas mágicas
Mesmo que não se saia de lugar algum
por vezes a melhor saída já nasce elaborada
Os meios nem sempre são aquelas coisas que a gente pensa sejam jeitos
os jeitos são meios próprios de conquistar as boas partes de um caminho e de vencer as complicadas
Os finais felizes moram não ao lado ou em frente, mas naquela sensação exata de fazer-se a coisa certa mesmo no momento errado
e ser feliz não é um final, mas antes uma condição para se abrir os olhos
às vezes atrás de poemas
às vezes procurando esquemas
para ser-se assim somente feliz

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