terça-feira, 26 de outubro de 2010

Helianto

 

São muitas mãos de tinta

espalhadas pela contra-mão do quarto

rodopiando pelo olho girassol da cidade

a folha verde atravessada pela luz impressiona com amarelo sem nome

SE tem nome
Tudo pode ser dito
                  
               Então

me diz,
água 
teu som 
pra que eu te possa beber em silêncio redobrado
                                                                                             

                               S                                                                      

logos

                 



    A realidade é o sonho de uma fantasia que nasceu maluca.



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Esquecimento

Esquece essa palavra que inventei agora

                ela não existe
                   não é triste
                          e também não mora

                  Esquece pois o que te faz lembrar
                          uma sombra vertida
                           uma veste amanhecida
                                    e um vestígio salgado de algo doce

sozinhez

5 minutos
5 dardos   famosas eras

cinco absurdo
palavra escrita
mais muda que o circo sozinho
mais muda que a mudez
a sozinhez é a relíquia perfeita
pra quem já se quis uma vez

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

que dera


Quem me dera você soubesse... que sentada aqui, meio longe, meio perto, tenho muito de você. Sim, somos semelhantes, mas não só no sentido de sermos parecidos... Eu tenho muito de você, porque carrego você comigo, trago tuas idéias, tuas brincadeiras, os sentimentos, os medos baixos, os gritos loucos.

São acentos, espaços em direções, nossa língua pouco pontuada, escritas enviessadas, a gente às vezes não tem porque sim ou porque não. Por vezes os sentimentos ficam escondidos ou recatados atrás de brincadeiras e contradições.

Nas expressões criadas a duas mãos, nossa cumplicidade, que mascara a admiração mútua, sim eu sei... Até nos traio um pouco a escrever essas linhas, mas não ligo, hoje podes dizer o que bem desejares, esbravejar ou até mesmo tentar se desfazer aos meus olhos, eu não ligo.

Quem me dera você soubesse, que nesses passes nossos percebo toda uma infinidade tua... Que sei que te esforças entre um corre e outro pra falar um pouquinho, é um "oiee" apressado cheio de carinho, é um "fica bem" todo sem ter o que dizer. Às vezes cansado, outras engolido pelo próprio coração e os desejos confusos do mesmo, afinal os sentimentos não se dizem em idéias claras. A gente vai apalpando em descoberta contínua dos nossos anseios.

És solitário também às vezes... Sinto que nos aproximamos sem nem falar nisso, trazes um barquinho de meias culpas próprias, se olha muito e por isso mesmo se exige, por vezes radicalmente não se aceita... Não sei se isto é efeito do tempo, da nossa convivência, mas dando corda para minha intuição, acho que vai além de intimidade. Sim. Você mudou... Tua aflição mais serena, algo mais seguro, te sinto mais inserido no tempo, um pouco mais só também, até mesmo comigo, e no entanto bem mais teu, em palavras, em colocares teus pensamentos de maneira pontuada e perderes tua dispersão característica.

Sim, te vi mudar, e fico feliz com isso. Sentada aqui meio longe, meio perto. Mas com certeza atenta.

Não posso dizer que mudaria tua vida, ou que esta seria outra se estivesses mais perto... Mas posso dizer que seria o momento de estar segurando sua mão em algum momento mudo, nesses em que a mente devaneia, e nos perdemos pelos laços de idéias e sensações, apenas isto. Nada dizer quando percebemos como a simplicidade de um entendimento fala por si só.


E eu não poderia prometer nada, apenas segurar sua mão em um momento mudo. Quem me dera você soubesse o quanto isso valeria no mar que é tudo o que tenho de você em mim.

domingo, 17 de outubro de 2010



Então por isso

Lembranças... e por quê não? te pergunto.
sem dizeres nada, já sabes: antes de esquecer tudo vai te lembrares
e se foi belo o começo, quem dirá o fim

Um banho morno, uma vontade calma, uma tarde inteira
pra levar as asas do coração a passear
seja assim
seja sim

complete em ti a recordação solitária de um dia ter sido Amor.




pra vc que eu amo, bee
(...)Lovin' is what I got, I said remember that
Lovin' is what I got, now remember that
Lovin' is what I got, I said remember that
Lovin' is what I got, I got, I got, I got"



é porque



teu olhar percorre meu ombro
e chamusca meus lóbulos com essas pestanas de fogo
é porque
teus dedos giram meu pescoço
desenhando em minha espinha algo surreal
é porque
tua voz desce partida entre
seios, pernas e meios
é porque
fim
meio é
caminho
é porque liquidas quaisquer maneirismos meus
atropela-me como animal vadio impelido pelo instinto de cruzar a estrada
é porque sim
é porque não
por brigares como um cavalheiro
me dizendo batalha
e eu sendo moinho
sibilando rotas de ventos
trago-te
arrasto pelo sofá da cama
subindo um degrau
te faço nau
singro
parte sereia
metade desvario
e falas que não sou
dizes o que sou
me inimiga e me abriga
de pouco adianta
no fim da noite, no permeio da madrugada
desce assim como um encanto
que te faz uivo
eu lua
nem nua, nem luta
mas sempre tua

Os peixes da sala nadam de cabeça pra baixo
noite e dia suas barbatanas de luz caem de barriga para o céu
eu tenho esses olhos enormes que não me olham
mas eu sei que eles me veem
porque enxergo através deles
vejo as coisas todas
até as que não podem ser vistas
quando fecham os olhos
e supõe a alma quieta
estamos lá...
estamos lá, pra além do visto
vendo
respirando
parados na borda de algum lustre
segurando algo insegurável
transbordando algo hermético
estamos lá

para além dos portões
que nunca nos separaram
na imaginação irmã
intuição amante

estamos lá...
joaninhas, pássaros, gatos, cachorros
ladeiras, travessas, becos, parques
no alto da montanha
montados no arranha-céu
planando, dispersos
chegando
dando o braço
torçendo o peito
encarando sem olhar
fugindo dizendo
eu sempre estarei lá

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

marinheiros de Göteborg


Ainda no clima desse fabuloso livro, A Barca dos Amantes, de Antônio Barreto, talvez por ter passado a tarde à beira do Rio Guaíba, que não é rio, nem lagoa, nem estuário, enfim... É na precisão imprecisa desse romance, que concluo o dia de hoje. Partilhando um fato histórico o autor nos agracia com a leveza e a profundidade do romance, não apenas em gênero literário, mas muito antes buscando a história de um amor inconfidente: Marília de Dirceu, ou Tomás Antônio Gonzaga e Dorotéia Joaquina de Seixas. Um homem estrangeiro que se vê diante de duas latentes transformações: a Liberdade, sonho, e o Amor.
É nesse universo que Antônio nos faz mergulhar, constrói a partir de sua pesquisa, isca e iça apontamentos
para dar forma ao amor de duas personagens tão simbólicas e reais, um amor brasileiro, mesclado ao modo de amar fortemente influenciado pela cultura européia, e é em seus versos que Tomás nos deixa as maiores provas de que o autor por fim, não só o encontrou, como fez possível a existência de uma Marília perpetuamente de Dirceu.

Deixo aqui, os  trechos que me moram na memória desde a primeira leitura, em 1996;


""Era urgente que eu me ensinasse o convívio das lembranças amargas, da solidão e da sua saudade. Transformá-las, de repente, em algo suave, que eu pudesse tranqüilamente suportar, como as imagens que se iam do meu desejo. Era necessário que aquilo se transfigurasse das trevas à incandescência, que eu tomasse a consciência, outrora escondida em teias, da tua falta. Mas ao mesmo tempo que o passado fosse presente como o seu perfume, como a arraia azul, que agora minha pequena caravela se encarregava de ninar. (...)


(...) E antes de partir, naquela noite, fiquei pensando apenas na única coisa que você não me contou sobre a lenda dos marinheiros nórdicos: que os sonhos de quem ama, às vezes, podem naufragar uma esquadra inteira nos lençóis de alto-mar.
E o amor de quem fica, transportando o oceano nas mãos, é muito maior que todos os deuses da água e do vento..."



A Barca dos Amantes


 Para ouvir

"Grimmelshausen e os marinheiros de Göteborg ensinam que a terra flutua na água, como uma embarcação, e que a água, agitada pelas tormentadas, causa os terremotos. E os terremotos são as batidas do coração de Smögen, prestes a reencontrar Magnor, a Sereia do Amor Eterno, abandonado pelos Murgens no início do oceano.


Mas dizem que Magnor conseguiu escapar pela brecha de um dique, nas terras baixas do sul, e viveu em Haarlem até o dia de sua morte. Ninguém a compreendia, porém, ensinaram-na a fiar e bordar, e ela venerava como por instinto a cruz. Todavia, como Magnor não era um peixe porque sabia fiar, e como não era uma mulher porque podia viver na água, Smögen veio buscá-la.


Por isso, de baixo da terra - nas planícies juncosas, nas regiões geladas e nos pântanos - jaz Magnor, que tem a forma de um barco e que, ao mover-se, faz tremer a Terra. E para os Murgens, o barco- dos-terremotos é uma arraia de 5 mil milhas que leva a Escandinávia no lombo. Corre de oeste a leste, conduzindo a Arca da Infância Perdida até as terras da Bruma da Loucura. E de sul para norte, carregando o Baú dos Remorsos até as águas geladas do Mar de Mármore.


Mas Smögen, depois que foi expulso do coração de Magnor, o Amor, transformou o ciúme na faculdade de deter os barcos, colando-se aos seus cascos e atirando-os às Rochas do Futuro da Morte. Pois ela nunca o colocara a par de seus sonhos, escondendo-os na pequenina "Barca dos Amantes", que cabia na íris de uma enguia-anã.


Dessa forma, quando duas pessoas se amam, nela devem guardar - na Barca dos Amantes - os seus sonhos. E quando o amor se vai, devem lançá-la ao mar para que os deuses da água se encarreguem de tranportá-los: os sonhos que um não revelou ao outro.


Porque Magnor voltará sempre, navegando pelos oceanos ilusórios do passado, levando nas costas, eternamente, o povo norreno. "

A Lenda da Barca dos Amantes", Göteborg, Suécia. Recopilada em 1772 por Emanuel Swedenborg.

domingo, 10 de outubro de 2010





Felicidade é torta de limão, chá e riso no quintal.



Um pedaço de Ti



Te lembro sempre, mesmo que te esqueça, 
perene é o 
s                                                                      
OM                                            
estendido na concha das mãos 
a cada manhã unidas para lavar o rosto. 
Tua face assim como a minha, 
tem algo de risonho e surreal, não traduz nenhuma, embora traga às espumas tantas realidades
Te ofereço um pedaço de mar
na ponta do olhar
na ponta a ponte dos dedos
que não pegam, mas viscejam pelo ar
a contar histórias sozinhas
senhoras de um curso 
SO                                                                            
Lar                                  
me remetes a algo, algo assim   a   n   S  o 
e arredio
impetuoso
convergem tuas mudanças mudas danças andanças

caminhas, esfera, ação não linear
espio na margem oposta um desenho composto
céu e mar
pés na terra

Sonho fugidiço, não existem asas quando é o coração que passeia
SOL                                                                                         
T                                                                                            
O                                                                                           

um ato de silêncio cobre a pele 
frio da fala
respiração quente que perpassa
  silêncio factual
nada escutas, porque nada digo

silêncio nasce na boca, percorre as orelhas
não alcança o fundo
desde os braços arrepiando a espinha
calma de pernas
balanço de pés
silêncio gruda na sola e não sai mais
fica auditando

S                                 
i
Lê                                                          
N
Cio                                               

Rio
e como não rir?
Vendo que a fala te recobre e vibra até não mais conseguir

Meu riso liberta o teu
que livre
sai desatado desatando essas falas todas
Riso cria asas, sobrevoa o mar, canta céu, cai por terra

perene é o 
                                                                                                   
OM                                                                              
estendido na concha das mãos 
levadas ao rosto para conter o que não pode ser contido

Como me faz feliz te ver livre assim


 

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Tentando entender o que o Blogger fez com minha lista de Blogs...

mon ami


Os barcos são peixes voadores, caminham no mar sem tirar seus olhos dos céus. O que me leva até você é uma ponte amarela, pontilhada de cravos verdes onde abelhas vermelhas zumbem harmoniosamente.

Falei pro Diogo que compartilharia essa foto no facebook...
Na realidade, uma imagem que me tocou profunda e irremediavelmente desde o primeiro olhar... Sim, dá pra pensar 'Mas também, como uma vista destas!'. Ok. Alimente-se da vista,  se aprofunde no horizonte, mas perceba de onde partes, em que pé estás... aos pés de algo surpreendentemente maravilhoso: um momento de calma e tranquila inspiração. Pra começar.
Há algum tempo que quero escrever sobre o trabalho do Diogo Brozoski, nos conhecemos há 4 anos, através de poesias. Natural de Santa Maria, crescido em vários lugares do Brasil, há alguns tantos anos instalado e total absorvido pelo Rio de Janeiro, a tal ponto que impossibilite para mim, chamá-lo de 'gaúcho'. Talvez dessas poucas pessoas que já nasce artista, no folclore familiar consta a história de que após assistir um desfile do 20 de Setembro, impossibilitado de articular palavras, pela pouca idade, ele se pôs a desenhar tudo que tinha visto e pelo qual estava admirado. E até hoje, isso acontece, incapacitado ou não querendo dizer o que falaria, Diogo tece um diálogo natural e rico através de sua produção, acostumado a ter ideias demais ao ponto de dá-las a quem deseje ou precise, trabalhando com Publicidade.
No seu universo simbólico-formal vê-se acontecerem ciclopes, cabeças aladas, mulheres míticas, caraminholas da carência de transcender do homem contemporâneo. Grande versão de contemporaneidade, a obra desse artista permeia campos tão distantes e tão próximos: dor e prazer, alegria e tristeza. Da sarjeta incomensurável que é a realidade crua, plano físico dos acontecimentos cotidianos, extrai pequenos movimentos em direção a algo maior. Talvez Deus, talvez cosmos, emerge da sua obra algo quântico e revelador: tudo está próximo, tão junto, que nada é algo, e todo algo pode ser tudo. Em suas formas que enlaçam e dançam numa representação por vezes muito mais colorística que pictórica, conceitualiza o sem conceito: o vazio existencial acolhido por um contato humano singrando numa busca primordial: espírito.
Nesses 4 anos de convívio, embora termo difícil de aplicar pelas distâncias poucas vezes vencidas, acompanhar e ver desenvolver-se cada vez mais uma trajetória tão íntima e plural, é de uma riqueza própria para que eu diga 'Mas que vista!'
O trabalho do Diogo não se entrega ou resume, em uma caminhada tão sua, que começa um caminho vencendo a si mesmo para depois vencer o mundo, uma arte incubada e prematura, porém prestes a nascer caminhando pelas próprias pernas, prestes a surgir tão imensa como se sempre tivesse existido como é. 
Uma incansável procura indentitária, que em procurar-se constrói, e construindo estabelece um novo acordo pessoal e intransferível entre artista e criação.  De um lado essa aflição habitual a todo artista, o como, o onde, o porquê, esquecidos e transcendidos revelam uma também habitual natureza para a busca da maior resposta: simplesmente Ser. 
Meu sonho maior ainda, é escrever um catálogo sobre a obra deste artista e amigo, com uma dificuldade deliciosa de não saber por onde começar. Desenhos, influências, descobertas, aprofundamentos, desdobramentos, no fundo, mesmo sabendo que tudo são buscas e olhares, seria uma delícia percorrer parte a parte desse todo sem fim, colhendo cada análise formal, sem delimitar potenciais ou escolhas.
Pro meu amigo artista, que acha precisar estudar aquilo que espontaneamente brota em si: parabéns pela imagem de hoje tragada por tantos ontens, desejo que seguida de incontáveis 'agoras'



Você acha que sabe, sem saber
age como quem pode, sem poder
estreitos são os laços
os do afeto sincero
e  os mesmos que enredam quem se presume discreto.