quarta-feira, 13 de outubro de 2010

marinheiros de Göteborg


Ainda no clima desse fabuloso livro, A Barca dos Amantes, de Antônio Barreto, talvez por ter passado a tarde à beira do Rio Guaíba, que não é rio, nem lagoa, nem estuário, enfim... É na precisão imprecisa desse romance, que concluo o dia de hoje. Partilhando um fato histórico o autor nos agracia com a leveza e a profundidade do romance, não apenas em gênero literário, mas muito antes buscando a história de um amor inconfidente: Marília de Dirceu, ou Tomás Antônio Gonzaga e Dorotéia Joaquina de Seixas. Um homem estrangeiro que se vê diante de duas latentes transformações: a Liberdade, sonho, e o Amor.
É nesse universo que Antônio nos faz mergulhar, constrói a partir de sua pesquisa, isca e iça apontamentos
para dar forma ao amor de duas personagens tão simbólicas e reais, um amor brasileiro, mesclado ao modo de amar fortemente influenciado pela cultura européia, e é em seus versos que Tomás nos deixa as maiores provas de que o autor por fim, não só o encontrou, como fez possível a existência de uma Marília perpetuamente de Dirceu.

Deixo aqui, os  trechos que me moram na memória desde a primeira leitura, em 1996;


""Era urgente que eu me ensinasse o convívio das lembranças amargas, da solidão e da sua saudade. Transformá-las, de repente, em algo suave, que eu pudesse tranqüilamente suportar, como as imagens que se iam do meu desejo. Era necessário que aquilo se transfigurasse das trevas à incandescência, que eu tomasse a consciência, outrora escondida em teias, da tua falta. Mas ao mesmo tempo que o passado fosse presente como o seu perfume, como a arraia azul, que agora minha pequena caravela se encarregava de ninar. (...)


(...) E antes de partir, naquela noite, fiquei pensando apenas na única coisa que você não me contou sobre a lenda dos marinheiros nórdicos: que os sonhos de quem ama, às vezes, podem naufragar uma esquadra inteira nos lençóis de alto-mar.
E o amor de quem fica, transportando o oceano nas mãos, é muito maior que todos os deuses da água e do vento..."



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