terça-feira, 24 de dezembro de 2013




às vezes gosto de pensar que o amanhã é algo que me incendeia
por inteiro
por completo
no âmago da alma se acende a fagulha
que de um instante
faz um risco de céu
num momento de lua

segunda-feira, 30 de setembro de 2013











benfazeja

Às vezes não sei o que a vida quer de mim,
que ame, que seja só, intempestiva, festiva, grata, odiosa, 
                                                        
que sofra, que ria, que goze ou gema, que deteste, que teste
que crie ou desista, que faça, cruze as mãos e espere
deseje, que não deseje
que esqueça...                               

Que seja! Que seja!

Vida, vidinha benfazeja, que fazes de mim quase sempre o que deseja
Empresta-me assim teu vigor, tua cor
teus braços longos e dançarinos
e ensina-me por favor mais alguns passos

para que ao menos eu possa improvisar estes teus tão desvairados compassos
 


           Se sentia humana
                       estava plena

tinha os dedos agitados de quem fala sem parar
amava os textos, até mesmo os sem heróis
enquanto esperava ia traçando ideias no papel

sentia que se a vida muito lhe pedia
cada vez menos restava, e que assim talvez até fosse bom, pois já havia vivido espaços demais
e até se sentia pequena pequena demais para preenchê-los

vivia agora umas coisas meio assim, sem planos
cheia de urgências que caminhavam da mente ao corpo
e do corpo pela mente
tivera alguns sustos, passara alguns dias quase morta
 e quanto mais tentara vir a tona
mais o queixo lhe caía aos pés
ingênua
jurava a si mesma que estava tudo bem
que seria tudo apenas um gigante porém


preferia acreditar que a mágica dos dias, embora meio confusa e arbitrária
ainda se fazia vigente
e que tudo não passava de drama pessoal totalmente desnecessário

e embora tudo parecesse querer se acabar
não se dava por vencida
continuava como se nada fosse absoluto
apenas passageiro

terça-feira, 17 de setembro de 2013

suspensão




Estou suspenso. Estou suspenso entre dois espaços, dois momentos, um momento, um espaço. O aqui e o agora. Estou suspenso pelas asas do mundo, sentindo todos os ares que se deslocam pela esfera celeste. Estou suspenso num universo sem homens, mulheres ou crianças, fora do tempo e longe de qualquer lembrança. Estou suspenso no mais derradeiro instante, meus pés de algodão se desfazem antes de tocar o chão, sou um arremedo de anjo vagando pela escuridão. Cumprimento os dias e as horas, espalho pedaços de sonho pelas formas, eu sonho. Em meus sonhos estou sempre suspenso, um quase toque que jamais se saberá gentil ou amargo, pois estou suspenso antes que todas as coisas se encontrem ou se percam. Estou antes de agora, quase aí. Fecho os olhos e todas as idades me atingem, viajo pelos rostos do passado como quem puxa a cadeira para trás, prestes a se levantar, sinto o presente como um magnífico pôr-do-sol, todas as montanhas do horizonte me abraçam em seus braços de pedra, com a ferrenha crença de que o que é vivido pode ser prendido para sempre. Então mergulho num vasta e profunda piscina azul e meus olhos passeiam por todas as formas que o futuro possa ter, de dor e escuro, de claro e límpido. Sou o natural passageiro observador de mim mesmo. Me interrogo sobre e nada. Não me interrogo, sou nada, estou sobre, permaneço ilícito a mim mesmo. Dobro a esquina dos dias a espera de um agora inescrutável que nunca se revela, estou quase lá e então me escapa pelas mãos, ainda que sinta seus cabelos roçarem pelos dedos, ainda que sinta seu cheiro indefinido de algo surpreendente e vivo, ainda que o ar se desloque ao meu redor e através de mim com todas as funções de movimento,e um baralho de cores borre meus olhos vidrados, ainda que sinta uma batida inadvertida e suspensa no peito, apenas me resta inalar aquele instante, e é assim que sei que estou respirando o agora. Quando me liberto de todas as horas mais que possa ter, que possa ter tido, todas as que foram e as que são, no agora, sem distinção, num agora supremo e irremediável, deliciosamente traçadas palmo a palmo num corpo de escuro e silêncio vívido, onde cada célula se exprime na mais intensa recepção de todas as mensagens possíveis. Agarrado a mim mesmo, atravesso o agora tanto quanto sou atravessado por todas noções inertes da alma, imberbes, latentes, pulsantes, no vão da alma todas as respostas aguardam suas perguntas, das mais ingênuas e aparentemente sem propósito, as mais estranhas, absurdas e insanamente despropositadas. O agora sempre se permite não perguntar, como um ser tranquilo e ancestral, ele apenas é.
Um momento sem perguntas para as respostas, guardadas, escondidas, dadas ou furtadas com ferrugem dos destroços arcaicos da vida, o agora transpassa qualquer intenção, ele não se valida numa reflexão, contínua ou exagerada, todas reflexões são nada no agora. Estendo os braços pra essa janela nítida, como quem vai abrir as cortinas de um espetáculo ou saltar de um penhasco, num ímpeto de louco me jogo no agora sem esperar convite ou uma negativa de pálpebras, posso ter fechado os olhos do corpo, mas minha alma está tão desperta como mil alfinetes cravados na pele, respirando pelos poros do espírito me abro para a ponte mais brilhante de todas capitais, um sorriso se abre em meu peito de ar, as artérias bombeiam mais que sangue, estão repletas de desejo, um desejo palpitante e excitado em cada milimetro de ser e não ser.

Estou suspenso entre dois mundos, um que sou, um que é, nessa esquina de percepções todos acasos acabam de falecer, todas condições cessaram de se pensar, para além do tempo, de homens e mulheres, o agora é o único transeunte dentro de mim. E com seus passos lépidos, de ponta de pés gelados, caminha por toda minha superfície, captando, reconhecendo, acarinhando todas as outras possibilidades que se foram quando sua passagem se fez real, vigente e real, o agora deixa atrás de si um espaço que jamais será retomado por qualquer outro instante além do agora, e ainda assim, como bom jogador, a todos encanta, mesmo que já não possam mais ganhar o que agora já conquistou.

Fecho os olhos, as pálpebras se encontram na respiração dos cílios, um a um, delicadamente desenhados pelo universo, distribuídos pelos seres suas partes, sou uma gota única que solitária desliza na pele de um corpo abençoado pelo prazer de estar vivo dentro dos olhos do agora. Me deixo escorrer no mais natural dos acontecimentos, até evaporar, liberto da superfície do agora, abandonado de qualquer suspensão, finco os pés no chão como quem acaba de ser beijado pela vida, como quem, Agora, já pode viver qualquer coisa nas ruas esfumaçadas da percepção.

domingo, 19 de maio de 2013

regalo



 " Engraçado como não tenho pena de ti, e tem dias, como o de hoje em que desejo que te sofras demasiado. Então me lembro que por hora sou tua maior dor, e me prontifico de bom grado a manter vivo teu sofrimento enquanto tu destinares ao desamor teu maior regalo."

"você diz que tem muitas coisas para me falar
cuida. peço-te.
não me assuste quando moro no silêncio.
não me assuste pois posso naufragar num mar de palavras, porque mastigo cada escrita não feita, e meus joelhos já não cansam mais de me manter em pé.
eu tenho curvas e curvas de mim mesma para caminhar. tenho os olhos grudados no horizonte, mirando cada desenho de céu que possa finalmente se transformar.
cuida.
manda-me talvez cada palavra dentro de uma nuvem
para que ela tenha o dia todo a passar pelos meus olhos"

sexta-feira, 12 de abril de 2013



Pezinhos de gotinha de chuva,
fazendo plac plac ao cruzar a sala,
no jardim as plantas que nascem
nas janelas outros ventos chegam
cumprimentam de passagem
você nos meus braços de gira-gira
minha alma intensa se torna alegria

terça-feira, 1 de janeiro de 2013




deixar o passado onde está
para trás
nem véus, nem estradas
o pó fica na memória

sem gestos macilentos
sem puídos nos dedos
deixar o passado onde está

deixar o vento e o tempo passar
deixar a água sedimentar
e o fogo dos olhos arderem
perscrutando o futuro

sempre um passo a mais a se dar
cruzar
e ultrapassar

com o peito ungido
cingir as mãos
estender os braços


e segurar o mundo com todo carinho

plurificar





 ............  ........ ...........º°                            
há um novo ano
há mais de tanto, planos
há meios, meios que há
meio há
é como
                                          
simples estar
vontade de acontecer
seja como tem de ser
vívido
vivido
sentido
                          
para ter
e sonhar
para dar
e amar
                      
                   
e se para realizar
basta acreditar
estamos feitos
homens
meninos de umbigo no centro
para subir montanhas e mirar
para se jogar no mar e mergulhar
sentir o vento, pé de pensamento a vingar
                                                    
feitos desse pó tênue, vida
feitos dessa coisa que ninguém vê, alma
feitos da matéria, ação
feitos de ideias, e nutridos na fé
há de ser o que se é