terça-feira, 17 de setembro de 2013

suspensão




Estou suspenso. Estou suspenso entre dois espaços, dois momentos, um momento, um espaço. O aqui e o agora. Estou suspenso pelas asas do mundo, sentindo todos os ares que se deslocam pela esfera celeste. Estou suspenso num universo sem homens, mulheres ou crianças, fora do tempo e longe de qualquer lembrança. Estou suspenso no mais derradeiro instante, meus pés de algodão se desfazem antes de tocar o chão, sou um arremedo de anjo vagando pela escuridão. Cumprimento os dias e as horas, espalho pedaços de sonho pelas formas, eu sonho. Em meus sonhos estou sempre suspenso, um quase toque que jamais se saberá gentil ou amargo, pois estou suspenso antes que todas as coisas se encontrem ou se percam. Estou antes de agora, quase aí. Fecho os olhos e todas as idades me atingem, viajo pelos rostos do passado como quem puxa a cadeira para trás, prestes a se levantar, sinto o presente como um magnífico pôr-do-sol, todas as montanhas do horizonte me abraçam em seus braços de pedra, com a ferrenha crença de que o que é vivido pode ser prendido para sempre. Então mergulho num vasta e profunda piscina azul e meus olhos passeiam por todas as formas que o futuro possa ter, de dor e escuro, de claro e límpido. Sou o natural passageiro observador de mim mesmo. Me interrogo sobre e nada. Não me interrogo, sou nada, estou sobre, permaneço ilícito a mim mesmo. Dobro a esquina dos dias a espera de um agora inescrutável que nunca se revela, estou quase lá e então me escapa pelas mãos, ainda que sinta seus cabelos roçarem pelos dedos, ainda que sinta seu cheiro indefinido de algo surpreendente e vivo, ainda que o ar se desloque ao meu redor e através de mim com todas as funções de movimento,e um baralho de cores borre meus olhos vidrados, ainda que sinta uma batida inadvertida e suspensa no peito, apenas me resta inalar aquele instante, e é assim que sei que estou respirando o agora. Quando me liberto de todas as horas mais que possa ter, que possa ter tido, todas as que foram e as que são, no agora, sem distinção, num agora supremo e irremediável, deliciosamente traçadas palmo a palmo num corpo de escuro e silêncio vívido, onde cada célula se exprime na mais intensa recepção de todas as mensagens possíveis. Agarrado a mim mesmo, atravesso o agora tanto quanto sou atravessado por todas noções inertes da alma, imberbes, latentes, pulsantes, no vão da alma todas as respostas aguardam suas perguntas, das mais ingênuas e aparentemente sem propósito, as mais estranhas, absurdas e insanamente despropositadas. O agora sempre se permite não perguntar, como um ser tranquilo e ancestral, ele apenas é.
Um momento sem perguntas para as respostas, guardadas, escondidas, dadas ou furtadas com ferrugem dos destroços arcaicos da vida, o agora transpassa qualquer intenção, ele não se valida numa reflexão, contínua ou exagerada, todas reflexões são nada no agora. Estendo os braços pra essa janela nítida, como quem vai abrir as cortinas de um espetáculo ou saltar de um penhasco, num ímpeto de louco me jogo no agora sem esperar convite ou uma negativa de pálpebras, posso ter fechado os olhos do corpo, mas minha alma está tão desperta como mil alfinetes cravados na pele, respirando pelos poros do espírito me abro para a ponte mais brilhante de todas capitais, um sorriso se abre em meu peito de ar, as artérias bombeiam mais que sangue, estão repletas de desejo, um desejo palpitante e excitado em cada milimetro de ser e não ser.

Estou suspenso entre dois mundos, um que sou, um que é, nessa esquina de percepções todos acasos acabam de falecer, todas condições cessaram de se pensar, para além do tempo, de homens e mulheres, o agora é o único transeunte dentro de mim. E com seus passos lépidos, de ponta de pés gelados, caminha por toda minha superfície, captando, reconhecendo, acarinhando todas as outras possibilidades que se foram quando sua passagem se fez real, vigente e real, o agora deixa atrás de si um espaço que jamais será retomado por qualquer outro instante além do agora, e ainda assim, como bom jogador, a todos encanta, mesmo que já não possam mais ganhar o que agora já conquistou.

Fecho os olhos, as pálpebras se encontram na respiração dos cílios, um a um, delicadamente desenhados pelo universo, distribuídos pelos seres suas partes, sou uma gota única que solitária desliza na pele de um corpo abençoado pelo prazer de estar vivo dentro dos olhos do agora. Me deixo escorrer no mais natural dos acontecimentos, até evaporar, liberto da superfície do agora, abandonado de qualquer suspensão, finco os pés no chão como quem acaba de ser beijado pela vida, como quem, Agora, já pode viver qualquer coisa nas ruas esfumaçadas da percepção.

Nenhum comentário:

Postar um comentário